Disseram-me que não era
- alguém -
deram-me um nome
- corpo de delito -
Que fiz eu para me ab-rogarem
a identidade
nas margens augustas
Se era o molde que queriam matar...
que me afogassem na sede da culpa
onde as labaredas
comem tudo
até o último poro da razão
Que culpa teve o meu corpo
se era o meu espírito
o réu
Porque não queimaram a minha história
rifando a rima
a rama e a raiz
Abandonaram-na
inglória
no sangue-frio imperecível da rigidez social
Mostrando restos que já não existem
exibindo aos olhos da orbe
um trofeu amputado
Um desenho sem complacência
Que crime surrou os meus apontamentos externos
que ficaram como um desassossego
no espelho dos meus juizes
Quem sou eu
agora
senão a ofensa do corpo usual
um quadro feio
É aquilo que mostro...
Mais o tesão...
Com este farei justiça.
Fernando Oliveira
Parceria: https://picturalpoesia.blogspot.com/
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Desespero
Nada mais espera!...
Caiu num chão tão puro
como o aço do punhal num peito amaldiçoado
que fere além da morte.
Sem conhecer a mensagem da lâmina
afundou-se num sono imundo.
Que lhe extirpou o desejo de acordar.
Caiu sem morrer!...
na água-surda animada de desânimo
num fundo estóico
de espelho incógnito.
E ali ficou na infâmia gémea
ânsia de sublimar um chão fértil
que engenhasse a sua reabilitação.
Que dos seus ombros ineptos
nascesse a faísca indócil.
Que levariam os seus cabelos até um altar. Onde.
Pela dinâmica duma tempestade de fogo
Um fio mais agudo que o cume da lâmina
consumisse o punhal que a prostrou
no desespero.
Fernando Oliveira
desenho/grafite/papel A IV
Parceria:
__________________________________________________________________________Je suis moi. Et moi!
Seul.
Un couple d’une pièce
l’être ratifié
l’ego plausible.
Celui qui s’aime
sans décalages.
J’habit en moi
avec moi.
Nul part ailleurs.
Un double dans l’espoir
d’un tiers.
Afin de me fondre dans un lien
et devenir deux…
Avec un autre.
Fernando Oliveira



