Meu caminho é de pedras... Preciosas
Meu caminho é de pedras...
preciosas
Em mim há um rumor de partida
meus passos caminham lentos
Hesitam
O chão parece repleto de dúvidas
... pisar numa estrada
que talvez nem exista
O amanhã ruge distante
Estremeço
dou um passo
e a alma se despedaça
na poeira dos instantes
recuo mas não volto
recolho vestígios de saudade
Letras em aliança
tentam gritar a mesma vertigem
que o traço revela
minha assinatura é território
que o meu silêncio sustenta
Há uma estrada
imensa, rasgando o mundo
como se fosse meu último verso
guardião do percurso
Uma encruzilhada
Meu olhar deseja o horizonte
minhas raízes presas ao ninho
às estações interiores
condenado a amar o impossível
Meu caminho é de pedras...
Preciosas.
Miriam Li/Braga
grafite/papel A IV
Lábios do Universo
Lábios do universo
Quisera ter
a impetuosidade das águas do mar
que tanto me fascinam
avançar pelas areias da praia
até o termo onde alcançam a calma
E retornam
Sensível
como a crisálida
tenho o olhar com cor de poesia
transbordo em versos de amor
com sabor de maresia
Meu caminho é de pedras...
preciosas
Nos braços de poemas
pintados à luz da lua
navego céus abertos
entre estrelas marinhas
Cúmplice
Orquídea da noite, feita de ausências
beijo o abraço do sol e da lua
Existo
nesse raro encontro
Inteira
nos lábios do universo
Em verso.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(100 x 25)
Resto do Post
O beijo que nos procura
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O beijo que nos procura
Sabes que ontem eu te quis
como a chama da neve ardente
como poesia entregue ao poema
Letras de espera me consomem
em versos calados de te querer
Ainda
sou o desejo acorrentado
ao desespero do teu olhar de partida
Tantas vezes eu pensei gritar
no encontro fatal das nossas mãos
rasgar o tempo
implorar ao instante
do teu olhar querendo ficar
Sabes que ontem não vivemos
e que amanhã não somos
entre nós respira o silêncio
do beijo que nos procura .
Miriam Li/Braga
grafite/papel camurça
(60x40) cada
Resto do Post
Sussurros da noite
Sussurros da noite
Meu pensamento pulsa cosmos
Flui
regado a oceanos de estrelas
respiro céus que o universo guarda
Quando a noite sussurra estrelas
o poema adenso de mim
fratura o verniz opaco
dos véus inválidos impostos
Indiferente
ungida pelo luar de janeiro
observo auroras que não sei conter
nos corredores férteis do tempo
No silêncio vulcânico que me abriga
cada lágrima evapora em chama
no clarão ardente das eras líquidas
E ruge
na garganta das tempestades mudas
no túnel das lembranças feridas
que a minha pele bordada de luz
respira
Versos em brasa
fendem o poema em olhares calados
encharcam de poesia os céus siderais
Laços silenciosos
beijam a tela do meu infinito olhar
num abraço que só o silêncio traduz
E o poema, cioso, escuta.
Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
(90 x 60)
Resto do Post
O beijo do beija-flor
O beijo do beija-flor
O meu silêncio se cala para dizer
És tu!
o instante vivo
no meu olhar perdido
Derramado
no entardecer do mar extremo
no orvalho da lembrança bruta
na distância que não separa
o sol da lua
No beijo do beija-flor
abandonado
no desejo impiedoso de voltar
Silenciar é preciso
para que sonhos se reencontrem
é preciso não voltar
para que o desejo entre nós viva...
Inteiro
na quietude de lágrima calma
no silêncio da despedida
Infinito
na vastidão de um segundo
detido no poema silenciado
na carne crua
dos olhos do mundo.
MiriamLi/Braga
acrílica/MDF
(112 x 0,85)
Resto do Post
Dentes de leões
Dentes de leões
Eis-me
Descalça sobre o concreto ardil
das arenas de incompreensão
Sem escudo
Guardo lágrimas caladas
à soleira do grito
Dentes de leões rondam a poesia
lambem meus versos sem paisagem
machucam o brilho do silêncio
que me ilumina
Empunho a espada do afastamento
para não magoar o poema
para que a minha voz respire...
Liberdade!
Para que a minha palavra não sangre
na boca dos ruídos tolos
Nas ruelas feitas de pausas
a poesia sobrevive intacta
e eu, refugiada na renúncia do som
que me sustenta
Não ergo a voz
clamores cativos me entendem
acendem a luz do silêncio
onde o sentido faz ninho
Há verdades
que somente o silêncio pronuncia
Não aprendi a lutar, consinto a ferida
para que o poema fique inteiro
resguardo versos que ainda pulsam
no silêncio que é minha couraça
onde nem os leões alcançam.
Miriam Li/Braga
Desenho/eucatex
(90 x 60)
Devolva-me
Devolva-me
Quando teus lábios febris calam
o que teus olhos ardem em mim
sou pele exposta ao caos
às portas abertas do céu abismal
da tua boca em fúria
Devolva-me
O abraço roçado
guardado vivo, na voz do silêncio
entre nós dois
O sussurro do meu olhar
estático querendo gritar
tuas mãos com tremor de partida
querendo ficar
O sorriso do teu olhar no meu caido
devolva-me o ar
Ou respira comigo
Sou horizonte extremo
rasgado de espera
sei de ti, dissolvido em mim
a rondar-me em desejo antigo impune.
Miriam LI/Braga
acrilica/verniz/tela
(90 x 80)
Ossos da linguagem
Ossos da linguagem
Há dias em que me descubro saudade
um lamento sem rosto, sem nome
mudo, serpenteia rasgando silêncios
nos céus de dezembro que se insinua
Minhas pálpebras, exaustas
sonham estrelas do mar
o vento, estático, abandona o próprio destino
flores sem cor, desaprendem aromas
A respirar o vazio do poema
a tristeza entristece meus versos
letras feridas berram a mudez de papel
E sangram
Descascam dores antigas
até os ossos da linguagem
amargas
se aninham no meu olhar
e o mundo desaba em tintas cruas
Um sussurro trêmulo do pincel
recusa a mágoa e, num trapo de tela
exalam os olhares da minha alma
Escritos quase todos nus
sem qualquer ostentação
para que o brilho das vestes
e o ouro no alto dos concretos de
dezembro
não desviem e ofusquem
o brilho que trazem no olhar
Em cada silêncio estampado
um recanto de poesia
há luz nas frestas ocultas
nos véus de dezembro encantado
resta-me pintar uma nova aurora.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(100 x 85)
Resto do Post
Rio sem margens
Rio sem margens
A indiferença do meu olhar
finge a canção ausente
declama o poema estátua
Versos calados sofrem comigo
escorrem como rio sem margens
gota a gota
no abismo de não ser
No instante em que me olhas
sabes de mim a renúncia inteira
Em mim
O teu olhar que desviei
a tua boca que não beijei
a tua pele de me querer
Meus pés descalços sonham
o encontro
na distância e no tempo
grandes demais
para caberem entre nós dois
No meu pensamento ainda soletro
a canção que fingi não saber
nas tardes em que te quis.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
parte de afresco (210 x 100)
Madrugadas vadias
Quisera ser estrela cadente
riscar céus de nuvens vivas
estremecer a noite rasgando véus
no tumulto do silêncio
airar-me na correnteza dos ventos
na extrema altura dos altos céus
Na distância e no tempo
sou longe demais, sou perto demais
sou grão de areia abraçando o mar
Nas madrugadas vadias
sou gota trêmula à espera de um olhar
meu pensamento range o meu silêncio
Iluminado pelo luar que me inventa
Tenho o olhar que grita versos
sonho o destino, olhares, a lua
E o mar
A céu aberto
nas margens poéticas do mundo
entre a dor de partir e o desejo de chegar
sou poesia em convulsão
que a lua, rendida, em mim derrama.
Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
90 x 60)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Raiz que rasga o chão
Raiz que rasga o chão
Versos em tinta versados, deslizam
beijam, devotados, a tela do meu olhar
brotam cálices com cores de flor
cada tépala um instante vivo de mim
que se abre em claridade
Taças tingidas, vazias de paisagem
seduzem o poema
têm o sabor do meu olhar recluso
para um mundo repleto de nãos
Tulipas na madrugada
não há espinhos
Indiferentes
aos ventos da indiferença
resistem nas bordas amargas do inverno
explodem, serenas, das minhas mãos
em direção à luz
Lançam raios perfumados de poesia
atravessam a noite
para encontrar auroras
Feito raiz que rasga o chão
meu nome floresce
do fundo intacto da terra fértil
encharcada do meu pensar
Respiro
versos nomeados
em tons de tulipas silenciosas
Insisto em ver beleza
no encanto pálido dos céus de Marte
nas cicatrizes secretas que do espelho
me olham
ainda com cor de sonhar estrelas.
Miriam Li/Braga
acrílica/madeira MDF
(75x 60) cada
Resto do Post
O beijo das letras mortas
O beijo das letras mortas
O painel murmura ausências
fere a cor da tela do meu olhar
na paisagem que falta
desejos suspensos estremecem
cicatrizes invisíveis na pele da cor
Indiferente à rudez da incompreensão
olhares em pleno voo
presos ao tempo sem cor
sobrevivem silenciosos
neste mundo que açoita e cala
Sob camadas de tinta fosca
latejam segredos da tela
recusam o poema que ruge
a quietude da dor
rejeitam o beijo das letras mortas
Na última fresta da cor
um rasgo de esperança
respira no instante estático
Versos enterrados vivos
aprenderam a respirar poesia
às portas do silêncio do fim.
Miriam Li/Braga
acrílica/tecido lona
(1,45 x 85)
Resto do Post
Luar de novembro
Luar de novembro
Sob o manto da noite voraz
meu olhar de desejo rendido
na ronda secreta dos sonhos
inflama o destino a te encontrar
Sanguíneo
Em busca de ti
esparrama-se febril em ondas
como verão escaldante
à procura do mar
Sob a luz do luar de novembro
meu corpo tardio, leito de esperas
guarda segredos nas veias do silêncio
repletos de ti
Em mim
brisa e tempestades do teu pulsar
Quero pousar nas tuas marés
latejar no rumor da tua pele
feito versos confessando ao poema
beijar estrelas cadentes
nas fronteiras do horizonte
ou nas areias do mar.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/papel A4
Resto do Post
Orvalho de lembrança
Orvalho de lembrança
O tempo é verso guardado
nas entrelinhas delirantes do poema
tecido no ventre da madrugada
respira perfumes amargos
encurta caminhos ao sabor das horas
finais
À beira do abismo de luz
a poesia, trêmula, suspende o pulso do mundo
beija estrelas-guia como quem escuta o silêncio do destino
Sob véus de retratos antigos
olhares fugitivos de gêmea solidão
às vésperas da eternidade
E ao findar destes versos
meu sonho se acende no cansaço das estrelas
há um orvalho de lembrança
sobre tua impune ausência
E o infinito
ensina ao destino
a amar em silêncio
na vastidão da existência.
Miriam Li/Braga
acrílica/papel camurça
60 x 40) cada.
Resto do Post
Voz de brisa
Voz de brisa
Há amores que vivem apenas no olhar
a eternidade num instante
Um fio de poesia percorre o poema
se demora em versos calados
letras que só o silêncio do olhar sabe
falar
Entre o olhar e o respiro
o mundo, num suspiro, silencia
o poema estremece, se inscreve
gota a gota
A poesia não narra o amor, ela o contém
o amor, quando se olha, é segredo universal
promessa que o tempo ainda namora
Há um verso inteiro, em cada sílaba quieta entre nós
Por toda a minha vida, este amor me habita
em suaves pousos clandestinos
da minha alma, no teu castanho olhar
E o poema
com voz de brisa, geme:
Só nós dois é que sabemos
o que o instante cala.
Miriam Li/Braga
afresco grafite em pó
parte de afresco ( 210 x 100)
Resto do Post
Véus do olhar
Véus escapam do poema tingido
jorram olhares
com cores que já não têm
A secura da névoa
que dança no fio da memória
reflete o espelho das cores fugidias
como rios que margeiam lembranças antigas
E a tela
muda de calor, finge sorrisos
a quietude das pálpebras grita
em olhares em êxtase e dor
e a boca chora
o próprio brilho impudico
Uma febre insana dobra a ruína
em enganos de beleza
devolve ao vazio de ser invisível
a esperança de ser cor outra vez
O pincel fere o silêncio
desbota o olhar sob véus de saudade
onde o azul esqueceu o céu
é gesto sonhado tentando existir
no eco das minhas mãos
Pintar é amar o impossivel
cada traço um suspiro
de um tempo em tons abandonados
que ainda respira em mim
Sob véu de espera do meu olhar inquieto
espero
que olhares de luz me queiram ver.
Miriam Li/Braga
acrilica/carpete
(100 x 90)
Resto do Post
Neste instante calado
Neste instante calado
No silêncio do pensamento que nos une
somos
instantes que o tempo não separa
ficas em mim
como o último encontro ao fim da tarde
e em ti, meu olhar suspira
à flor da tua pele acesa
Somos
versos que se inscrevem
no hálito das estrelas que, silentes, nos espiam
Neste instante calado
somos
o eco imortal de um beijo
olhar e abismo que florescem
lembrança que respira nas pausas da existência
Vozes que se olham
olhares que se escutam
silêncios que se tocam na ausência
respiram o perfume do encontro
que o destino não ousa apagar
Sou rosa-choque em preto e branco
o canto das folhas do outono da tua ausência
silêncio estridente, sou
És brilho cadente de um pássaro cigano
última tinta viva do meu versar
E o mundo
exausto, se cala em nós
sangra poesia
com se, ao nos amar
morresse de amor
Míriam Lima/Braga
argila/verniz
Resto do Post
Rio dos sonhos
Rio dos sonhos
Quando a noite desce
meu olhar se alonga para longe...
Um desfiladeiro de versos partidos
geme poemas em agonia
fere o silêncio que em mim habita
cala berros torrenciais à beira do grito
Sinto
Intensa dor, muda, sem corpo
meus olhos não me obedecem, teimam
e, antes que o meu olhar alcance o brilho das estrelas
e o colorido das vidraças do céu
dão rasantes pelas sarjetas
pela miséria das calçadas nuas
Adormeço no leito fértil do silêncio
sussurro a cantiga dos ventos
banho-me de lua cheia
mergulho nas águas sonoras
do rio dos sonhos
E sonho...
O tempo se dissolve em pefumes
flutuo entre pétalas abandonadas, ainda vivas
como lembranças que respiram na memória do impossível
meu olhar é fonte iluminada, me reencanto
amanheço derramada em poesia.
Miriam Lima
acrilica/carpete
(100 x 90)
Resto do Post
Dois passos de dança
Dois passos de dança
Abro as cortinas secretas da minha alma
não há plateia e nem aplauso
apenas o eco do meu próprio ser
que ressoa sem temor
nas paredes contentes dos sonhos meus
Danço para um mar de ausências
para não morrer em mim
quando o silêncio rasga a carne
com unhas de seda e aço
manchada por lágrimas antigas
O palco dormente acorda
nos meus pés, o pó do tempo cintila
nos meus olhos, uma lembrança de nada
no ar, perfume de sonho que não quer acordar
O chão range um sorriso reverente
cada passo, uma confissão que o meu corpo grita
Sou!
minhas pernas de balé
lanças de luz que riscam o ar
falam por mim
Há um instante antes do fim
respiro o ar com cor de encanto
canto o meu silêncio em tom maior
ao sabor da cadência além do som
Ainda sou inteira, há poesia em mim
Sou
dois passos de dança
que ninguém me viu dançar
Ninguém!
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(7 x 4)
Colar de lágrimas
Colar de lágrimas
O poema chora no colo da aparência
carrega na altivez de pedra
um colar de lágrimas
nascido do ventre ferido
Polido de ímpar solidão, antiga vitrine
eterno véu, esconde mares em fúria
berros submersos em mim
que não alcançaram a maré
Acalmado o furor
sou apenas renda de ausências
que se rasga na luz
Meu olhar naufraga
no espelho do anfiteatro do mundo
meus desejos, lapidados em vaidade
são poesias que não vivi
Sou moldura de silêncio emocionado
sorrio com o rosto
desfaço-me com o olhar de maresia
E o sorriso
É só o resto do rosto
que ainda sabe fingir.
Miriam Li/Braga
acriica/papel camurça
(60 x 40)
Resto do Post
Estou indo embora
Estou indo embora
No retrato golpeado
sou contorno que restou da luz
minto um sorriso embalsamado
com cores que já não tem
eco da carne de quem hoje é só papel
A moldura é porta aberta do silêncio
mas ainda escuto o rumor da minha alma
Estou indo embora
de vestes nua
tentando escapar do ventre da noite
a pele em ruína civil
é carcaça egoísta de alma
Não sei se já sou apenas lembrança
ou ausência visível
a caminho do começo invisível do fim
Resta-me a inocência do meu ombro
Nu
a seduzir o olhar do esquecimento
como se tivesse olhos de me querer
Estou indo embora.
Miriam Li/Brag
Grafite em pó/eucatex
(70 x 60)
Resto do Post
Um poema sem poesia
Um poema sem poesia
Não há vida... nem morte
a inexistência do sabor de amanhecer
deitada na sarjeta suja de não ser
Embriagado de vazio, à espera do nada
um poema, sem poesia, verte da quietude da dor
grita por um mundo menos nítido
Há um silêncio de vidro ao meu redor
ninguém me espera
tenho o hálito amargo do que já desisti
Se eu entrasse para dentro de um copo de cachaça...
o chão me entenderia e eu, líquida
derramada em indiferencas cruas
e memórias que me afundam em lágrimas de desespero
seria um vulto dissolvido em partículas de ressaca do mundo
Meus ombros em rendição
já não sustentam a minha sombra nua
que ainda respira um instante que nunca termina
O abismo me beija em silêncio
como se esperasse apenas por mim
ameaço negar as minhas lutas
resistir...
vazia de calor, me entrego
A água celeste banha meu corpo esquálido
respiro o rio das almas, gota a gota
enquanto lava a lama dos olhos do mundo
Tenho as pernas secas de consolo
sem asas para voar, quero caber num copo
que me beba inteira, num gole só
como quem sabe que eu não volto mais.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/eucatex
( 60 x 50)
Resto do Post
Se me queres
Se me queres
teus olhos me dizem o quanto te importo
rompem a cortina do meu silêncio
Clamam
como se soubessem do desejo
que o meu corpo ainda cala
Se me queres, fico contigo
meu abraço ainda é promessa
aguardando o instante de ser beijo
Sou o que te percorre quando te vejo
o que em ti me reconhece
Teus olhos me olham
na vertigem do meu olhar
onde o corpo se dissolve em febre
Tuas pupilas crescem nas minhas
como se o céu coubesse num instante
trêmulo de nós dois
O amor simplesmente acontece
se divide para ser inteiro
Dois corpos que se pressentem antes do gesto
Se olham
no rumor do leito real dos sonhos
e, nos lençol de silêncio que espera
fazem da distância suspiros da pele
Somos versos do mesmo poema
Trêmulo
grita na carne do destino fiel
com letras de céu da tua boca
Se me queres
esqueço o aceno final
o adeus preso no teu olhar de partida
Miriam Li/Braga
acrilica/eucatex.
Resto do Post
A fuga da sereia
A fuga da sereia
Carrego vestígios vivos do mar
são águas do esquecimento
maresias antigas ainda me perseguem
nas minhas mãos um punhado de mar
No asfalto um perfume de abandono
exala dos meus passos nus
já não canto
Meus sapatos sabem mais de mim
do que o sal que me inventou
traços de mim
amargam os caminhos que renunciei
Sou o intervalo entre um passo e a ressaca
um quase adeus
ecoando o rumor das ondas
Ainda me chamam...
Já não respondo aos apelos do mar
feita de espumas aprendi a secar
Se a maré subir
que lave e leve meus sapatos
são gritos por retorno que não me levam mais
No cimento sem calor há letras de permanência
petrificaram meus versos
Deixo o espelho do mar
promessa de abismo azul
sonhei ser sereia...
para caminhar descalça
à beira do concreto cinza dos dias finais.
Miriam Lima
acrílica/grafite em pó/eucatex
(90 x 60)
Resto do Post
Que amor é esse!...
Que amor é esse!...
Que amor é esse
que martela a tua presença no meu olhar
rasga o meu respirar
como lâmina de fascínio na carne da esperança
Saio de mim a te procurar
na profundeza dos meus sonhos
no sopro cálido dos ventos uivantes
no rumor das esquinas do meu ser
na brisa do mar...
Quando chove em mim
fecho minhas pálpebras de ausências torrentes
Florescem outra vez
tão perto
Tão longe
no deserto árido da distância
na rudeza do afeto ferido sem corpo
no cárcere manso da lágrima calada
na voz oculta do véu da noite
Não quero estar sem ti
A espera
às portas dos meus sentimentos inquietos espera
e tem a cor de espelho do teu infinito olhar
Que amor é esse...
com sabor de eternidade.
Miriam Li/Braga
acrilica/madeira/compensado
(90 x 60)
Resto do Post
Eu e ela
Somos um mesmo poema vivo
respira entre a luz e a sombra que sou
Na extrema altura do céu
um encontro
luz e sombra juntas
tecidas no mesmo verso
Eu e ela
rompemos o precipício abissal da alma
trilhamos o mesmo destino
a palavra da carne e o vestigio da ausência
Juntas
Sou a luz que fere o dia
o instante onde ela respira
Ela, a sombra que me abraça
faz do meu silêncio morada
assiste meus gritos, silencia minhas quedas
consome meus segredos
Eu e ela
laços de um véu dourado que o tempo não rasga
dança antiga como o canto das estrelas
Eu, tempestade da pele
Ela, guarda o que em mim se cala
A confissão que o silêncio abriga.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(55 x 40)
Resto do Post
Corpo de delito
Corpo de delito
Negaram-lhe o direito de ser carne e pensamento
a voz aprisionada entre juízes mudos
Exibiram os ossos como troféu amputado da moral
pendurados nas vitrines espelhadas da decência pálida
Corpo de delito
Nada mais que um número carimbado
na pele gélida, um rótulo sujo que sangra
Um ninguém! Fétido!
Sentença que arde no espelho eterno
resto de um crime que renasce em arte
Só queria existir... respirou culpa
bebeu o fel das horas negadas
Sob a pele machucada havia um grito
a culpa de nascer com alma
O corpo esvaziado, sem retrato
o nome cravado no aço do esquecimento
A palavra que nasce do corpo julgado
do sangue e das cinzas da humilhação
vira gesto doloso, a arte, poema
último fôlego, lâmina que fala
Eternidade viva
como o silêncio, ainda respira na cruz.
Miriam Li/Braga
Desenho/papel A4
Letras do silêncio
Letras do silêncio
O meu silêncio tem voz, meus desejos, rosto
A boca é cárcere da palavra calada
a dor dorme sem nome
nos porões da tristeza vazia de calor
afetos repousam pela ruína da alma
Entre duas letras informes, encontrei o destino inteiro
respira em minhas narinas como beijo suspenso no ar
guarda segredos da dor que não se agita
Vesti o silêncio como veste que cobre a pele
e no lábio púdico, o fogo da tua ausência que não se apaga
Cada vestígio teu é abismo que me chama
guardo nele a cicatriz do teu lábio impúdico
ardendo como vinho antigo
Um beijo que me cresce nas narinas
transfigura o ar em desejo
sopro que me acendeu na carne dos olhos
A letra que deixaste no meu olhar
chave de uma prisão antiga sem portas
desvenda a ousadia, que nem às pedras confesso.
Miriam Li/Braga
Desenho premiado
XIII Salão Internacional de Artes Plásticas
Proyecto Cultural Sur - Brasil 2004
Bento Gonçalves, RS.
Desenho/madeira (100 x 70)
Resto do Post
Como no filme As pontes de Madison
Como no filme As pontes de Madison...
No silêncio secreto das horas roubadas
dormentes desejos sangrei
versos calados para ti cantei... cantei
livrei segredos, despertando pássaros, querubins
Ah! Como eu te amei...
Nua rua, lua nua
gestos incertos, noites com tons de perfume, tingidas
Destinada aliança
ao sabor dos desejos, no compasso dos ventos
no teu abraço dancei... dancei
Sobraram ecos dos beijos confessos
esparramadas pétalas na frágil calçada
Ah! Como eu te amei...
presa entre o desejo de correr até ti
e a condenação de sobreviver estátua à sombra do nada
com o olhar em prantos derramado
vendo-te partir com metade da minha alma
Nos passos que ficaram pelo caminho
Saudade sepultada viva...
no abraço guardado
em cada jura silenciada
na boêmia poesia
No clarão da tempestade dos olhos teus
vivo a morrer lentamente
no deserto doloso da tua ausência
deixando em cinzas o destino
E a chuva
lavando as feridas da renúncia calada
no véu da noite final
A eternidade pode caber em quatro dias
era amor, sabemos nós
Ninguém te amou assim, nem há de amar...
como no filme As pontes de Madison.
Miriam Li
acrilica/papel camurça (60 x 40)
Pintura e poema inspirados no filme As pontes de Madison.
Resto do Post
O silêncio dos invisíveis
O silêncio dos invisíveis
Um fio de poesia brota
entre lembranças que golpeiam a carne
e desejos que sangram sem consolo
sustenta berros calados que corroem
e denuncia a inexistência de existir
Ferida aberta de não ser...
Um sussurro de lamentos vedados
coberto com véus do esquecimento bordados de ais
escorre no eco do instante vazio
brutal suspiro, rasgado em restos de nãos
Do silêncio
nasce a eternidade das juras de amor
não há morte para quem sangra em poesia
O silêncio dos invisíveis...
Incenso da dor e da esperança
promessa de versos tingidos de poesia
que grita com voz que o mundo recusa ouvir
Invisível como a dor da lágrima calma
oculta em páginas e páginas de silêncio
tecidas em letras viscerais, universais
onde a dor se faz verbo, a poesia, destino
Guardião de berros que repousam, como pedra, na indiferença
e o mundo pisa a passos largos e finge não olhar.
Míriam Li/Braga
acrilica/papel camurça (60 x 40)
Resto do Post
Nos salões da eternidade
Nos salões da eternidade
No abismo das madrugadas repletas de ti
respiro saudades que carregam algemas exaustas
A poesia magoada, geme entre as grades do teu silêncio
transborda em versos com voz de prisão
Sem ti
a luz recusa o esquecimento
ainda que a noite se negue amanhecer
teu sonho insiste em atravessar o meu
Quisera, sob os véus cúmplices da noite, contigo, lentamente, dançar...
Nos salões da eternidade
abandonar o mundo nos braços teus
perder a razão no orvalho fatal do teu corpo no meu
Sabem as estrelas
somos eternos no instante do nosso último olhar
Às vistas grossas da morte...
Vivo!
Prisioneira da poesia com cor de ferida em carne viva da ilusão
condenada entre o ontem e nunca mais
no silêncio tumular dos versos, ainda te sonho.
Sobraram versos
presentes nas ruínas do meu ser
despedem-se de si, ocultos na própria dor.
Miriam Li/Braga
acrilica/esmalte/grafite em pó/compensado
(70 x 50)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Ecos do instante
Ecos do instante
Cansei de morrer, tantas vezes morri...
antes do abraço
a um passo do encontro marcado, morri
atravessei luas pálidas, cruzei sóis viris sem chegar a lugar algum, cansei
cansei... de morrer, cansei!
Reles destino, omisso, me deitou em mar de areia
náufraga do meu querer, ninguém me ouviu cantar...
Ninguém!
Na sombra de um verso sombrio da indiferença
foge de mim a pérfida poesia
inscrevo-te nas margens do meu olhar de espera
até a tinta virar oceano
E o mundo se cala
Entre lágrimas que a terra devora
abandono as algemas da esperança às margens do silêncio latente na madrugada vazia de calor
No corredor do tempo, o vento despeja saudade, promessas rasgadas e uiva lâminas de desejos
Fugitivos de gêmea solidão
Morremos nós...
à beira de um beijo morto
no abraço que nunca chega
Nunca!
Tu e eu morremos...
nos sonhos que ardem sob a pele nua
no encontro que não germina
na eternidade que se insinua
... para nos descobrirmos vivos.
Miriam Li/Braga
acrilica/lona (90 x 70)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
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Entre o céu e a terra
Sou cosmos e carne viva
conto estrelas como quem descobre destinos
sou da noite como a lua
sonho a poesia rasgando o ventre da madrugada
Com os pés descalços na terra que me aninha
sigo a luz que há no fim da orla extrema do céu
sussurro versos guardados no silêncio do ninho
enquanto uma lágrima árida transborda mares invisíveis
Entre o sopro do céu e o sangue quente da terra
há um espaço só meu, onde a minha vida é pintura viva
E, é ali
de luz e cor vestida que me refaço e renasço sobre a tela encarnada que me sonha.
Miriam Li/Braga
acrílica/tela vermelha (encarnada)
(60 x40)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
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Aos pés do mandacaru, chorei...
A noite celeste de estrelas vestida
em silêncio poético, cai no árido dia
acorda desejos com a lua
sal das paixões desmedidas
Sincera, rasga o céu noturno em revelação
inocente instante de furor da beleza em brancura noturna
Suplício
a morte súbita da flor da noite se veste de luz
do primeiro sussurro da aurora para nunca mais
Meu olhar permaneceu no silêncio ardente
do rastro dos espinhos que sangravam perfumes sobre a terra agreste esparramados
Fitei o segredo da eternidade breve
e a nudez da beleza e da morte anunciada
ajoelhei-me em êxtase e dor
morri e renasci na mesma lágrima calma
Aos pés do Mandacaru, chorei...
era a poesia que me fitava.
Miriam Li/Braga
acrilica/esmalte/eucatex
(90 x 60)
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