Aos pés da noite Eterna
Eterna
Há noites que amanhecem
sem nunca terem sido vistas
Luas que se perdem
até que o meu silêncio
deixe de ser espera
Não vou embora de mim
Sem testemunhas
venço olhares
liberdade de não precisar
responder ao olhar de alguém
No meu olhar
a luz e a sombra
que me inventam
nas mãos o pó
dos impossíveis
Um poema sem margens
Respira
letras miúdas
ainda sem versos
Que o tempo não me espere
Um sussurro de silêncio
mais fundo que a ausência
onde até os meus desejos
despem-se de si
Nus
aos pés da noite
Eterna
Míriam Li/Braga
grafite em pó/acrílica/eucatex
(90 X 60)
Temporária
Já não preciso ficar presa
entre o sonho e o olhar
um me chama, o outro me olha
A morte não mata a vida
termina a prisão
temporária
Indiferente
faço as malas
de esquecimento
temporário
Miriam Li/Braga
grafite em pó/papel A4
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Quem atirou a primeira pedra?
O olhar que não quer ver
emudece o verso
desorganiza
os ossos da linguagem
O poema concreta a poesia
eterna
simplesmente acontece
A vida não
Atiraram a primeira pedra
contra o espelho primeiro
porque não suportaram
o rosto que ele devolveu
Aprendi com as paredes
antes que me ensinassem
os museus
Com a luz e a sombra
antes que as nomeassem
Aprendi com o espelho
Alguém havia desenhado
na caverna
Quem atirou a primeira pedra?
Atiraram pedras na água
chamaram de ruído
aquilo que eram ondas
Eu olhei
Acreditei
no meu próprio olhar
sem pedir autorização
A pedra faz barulho quando cai
o olhar não
continuo olhando
continuo vendo a nuvem
As manchas
Rostos
onde disseram
que havia apenas parede
Atiram pedras
a fenda vira prisma
nasce o verso
E o sonho
Aprendi a olhar com encanto
o que não está pronto
a ver beleza
onde decretaram ruína
Quem atirou a primeira pedra
fechou as pálpebras
não viu
o universo numa mancha
o oceano num balde de tinta
o céu inteiro num espelho
pendurado
à altura da cintura
Quem foi capaz de olhar
antes de atirá-la?
Míriam Li/Braga
Antes que a noite anoiteça
Antes que a noite anoiteça
Um relâmpago estilhaçado
por um segundo
quebra o próprio céu
Revela
o rosto do mundo
O Universo inteiro fica sem segredos
Abre-se diante de mim
no extremo céu de agosto
Secretas
janelas de ausência
e o que a noite guardava
entregam-se à breve luz
Estremeço
vejo um pedaço da lua morta
e um punhado de estrelas
apagadas
sobre o telhado do meu silêncio
Um berro da eternidade
ensurdece a noite
Indiferente
rasga o véu da existência
Raios
sacodem o chão do poema
soterram meus versos
ainda vivos
e o rosto que tanto amei
sepultado na distância
Talvez a eternidade nem exista
Um clarão impossível
Um grito
Uma faísca brutal
que por um instante
devolve-me, em carne viva, ao princípio
antes que a noite anoiteça.
Miriam Li/Braga
acrilica/papel camurça
(60 X 40)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
A última janela aberta
Abro as janelas da noite
entrego ao silêncio
o último suspiro da cor
Como um beijo morto
a lua, silente
derrama-se sobre mim
Passiva esfinge
testemunha da lágrima calma
que meus versos soluçam
Não me procures
comecei a partir
antes mesmo de abrir a porta
Antes que a aurora
me espie
ajoelhada sobre ausências
que em mim dormitam
penduradas nos meus ossos
Queria ficar
Deus sabe
que eu queria
Ficar
é ouvir, novamente
os passos de quem partiu
Apago as luzes
do corredor
Levo nas mãos
a última estrela astral
que ainda acreditava em mim
junto aos beijos
que morreram nos lábios meus
E os meus sapatos vermelhos
de salto agulha
Esvazio os bolsos
dos nomes
que ainda me queimam a boca
A noite fecha a porta
Desapareço
antes que alguém descubra
onde escondi
a última janela aberta
Há um céu inteiro
dentro da tela de seda e aço
do meu olhar
Mas nenhuma rua
sabe o meu destino
Deixo sobre a mesa
o caderno e aquilo
que já não me veste
E sigo
sem nem mesmo a certeza
de ter estado aqui.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/eucatex
(100 X 65)
Resto do Post
Os outros
Os outros
olham-me com olhos ácidos
pendurados no passado
longe demais
sem batimentos
Leiam -me hoje, à queima-roupa
sob o sol do amanhã
extremo horizonte dourado
perto demais
Antes do fim
abrem-se as cortinas de vidro
que nos partem
E repartem
Entre nós
a poesia luta
Grita letras brutas
sustenta o estrondo da mudez
somos acordes do mesmo poema
Guardo projéteis de afeto
calados
Versos que talvez existam
somente para perfurar distâncias
romper vidraças
Te encontrar
Somos os outros
uns dos outros
Olhares que se encontram
sem saber quem olha
Quem lê
Miriam Li/Braga
acrilica/tecido lona
(1,45 X 85)
Resto do Post
Filhos da pauta
Abro os cadernos da infância
linha por linha
a palavra começa presa
a pauta é moldura
onde só se entra mutilado
Aprendi a amputar a carne do excesso
a dobrar a língua da imaginação
calar as orelhas da folha
e o desejo de transbordar
para caber no desenho
Gritar desejos em silêncio
para não sujar o molde
Esquálido
Cuspam
nos meus traços tortos
mas nem tentem apagar
a autoria e as rasuras
da minha liberdade estética
Fora da pauta
sem rédeas espirituais
recuso a hóstia da teoria
querendo batizar minha fúria
em canteiros alheios
Inculta
Pedra viva
Transbordo, singular.
Miriam Li/Braga
papel A 4
PS:
Somos, todos
Filhos da pauta mesmo
Julgamos, à revelia, a experiência de vida
uns dos outros.
Resto do Post
antes da tecnologia atual
Ossos do poema
Lavo as vestes de espera
lágrimas, absinto
E fel
Estendo ao sol da manhã
o pano puido do sofá azul
Esquálido
Mudo o curso
da poeira da saudade
para não me vestir de ti
Um sussurro
de estrelas marinhas
penduradas em versos
com cor de sonhar
ecoa
nos ossos do poema
Abandonado
devora o veneno
da carne da memória
Livre
escolheu ficar
Descalço dos sapatos de chumbo
perambula na noite do meu peito
Chora
sem ferir a poesia
Estremece
para, finalmente
vestir-se de mim.
MiriamLi/Braga
A única janela aberta
Um milímetro de silêncio
A noite do instante
Tua voz
se demora em partir
Inteira
além do som
Deságua em versos desertos
pelas ruas da madrugada
saliva entre silêncios
em carne viva
que aprendi a calar
Ainda somos
bocas famintas
aos pés da lua escarlate
de desejos
E mãos...
Existo
no cansaço do abraço
que não chega
Nunca
Estremeço
ao rumor da tua pele
como um berro calado
na garganta inflamada
do poema querendo voar
Desenho
o contorno dolorido
do peso do escuro
que desaba
com unhas e dentes
nas paredes mudas do poema
esculpindo a tua ausência
Às margens
do inverno febril do meu leito
um punhado de estrelas
ecoa teu perfume
nas auroras trêmulas
Da tua voz...
Tuas mãos!
Remendo páginas e páginas
do silêncio que range
a noite do instante
Rasgo as vestes de espera
Estremece o poema
repleto de pedaços
De ti.
Miriam Li/Braga
Resto do Post
Uma sílaba tua
Meu riso em desespero
sorri
para a lágrima calma
que prestes a chorar
calada
pendurada no teu olhar...
grita renúncias
anuncia a partida
Rasga
o gélido toque do adeus
que me despe da alma
Escorre
nos lençóis da minha pele
querendo ficar
Ajoelho
sussurro ao poema
que apague estes versos
que o vento não leve
uma sílaba tua
nem a tua boca da minha...
ou morra comigo.
Miriam Li/Braga
Versos que apaguei
entre silêncios que aprendi calar.
Três pinturas inacabadas
acrílica/carpete
(110 X 90) cada
Resto do Post
Quando já era quase adeus
Um verso clandestino
acende o olhar
do poema que me olha...
Romântico
Derramado em brancas páginas
pede a palavra
arranca de mim
páginas interiores...
Desarrumadas
Que aprendiam distâncias
até virarem ausência habitável
Fecha as pálpebras do ruído
apaga a luz devagar
para não assustar a poesia
As horas sempre precisas
esquecem de partir
Ficamos pele
neste lugar estreito
onde as letras já conhecem o fim
e mesmo assim
não retiram as flores da mesa
Quando já era quase adeus
o tempo perdeu o passo
devolveu-me as cores
ao que sempre em mim esteve vivo
O meu coração desconfiado
descobre que também enxerga
abre páginas fechadas
há muitos invernos
onde o meu silêncio pulsa
e o poema ganha contorno
Há poemas
que me chegam como encontro
outros me atravessam
esperam-me
às portas das madrugadas vadias
descongelam versos calados
quando já era quase adeus...
Miriam/Li/Braga
acrílica/papel camurça
(60 X 40)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Mãos cheias de lua
Resto do Post
Estátua esquálida
O oceano num balde de tinta
Paredes de arrimo
Afrescos/grafite em pó
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Silêncio armado
Resto do Post
Poema sem borda
Poema sem lua
Gritos de origem
Há um temor indizivel
que veste o mundo
com cores que ele já não tem
Um sussurro da lembrança
enterrada viva
sob camadas de esquecimento
Uma esperança umbilical, calada
Quem sou...
De onde eu vim...
Para onde vou..
O primeiro mundo
oceano sem memória
é gesto obscuro
que nos lançou à luz
Um poema inteiro sem gramática
somos eu, tu, nós...
E eles!
Os outros, antes
sombras que nos habitam
como herança sem retrato
Esse resto de eternidade
sonâmbulo sobre a carne
Todos
herdeiros expulsos do ventre
Abraço sem exílio
pendurado ao osso divino
Somos
esse intervalo ferido
entre o sopro e a queda
caídos num solo esquálido
Há um retorno
inscrito no abismo
que resiste à mudez da palavra
Rompe em gritos de origem
a ferida primordial em carne viva
que nos fundou
em tudo que insiste em amar.
Miriam Li/Braga
0 olhar do tempo
Resto do Post
Sob o olhar afiado do tempo
a voz do silêncio me chama
enquanto tua ausência
ainda respira na minha pele
Um fio de prata do horizonte
lambe meus cabelos
salga a pele da ventania
com perfume encharcado de mar
que ainda mora na minha boca
Repleto de ti
Ainda há mar entre nós
este pulsar tardio
me despe
não troco de pele
eu te visto
Estremeço
Quando te penso
a falência lenta
fere
tudo o que não te disse
Não te disse... não te disse?!
O olhar do tempo
implacável, me atravessa
em lembranças me devora
sustenta-me no que restou
E eu
nem o vi passar
Pálpebras caladas
derramam meus sonhos
sonhados acordada...
Contigo
É verso
poema em ruína
paixão
Desmorono
Até que o olhar do tempo
me olhe
Me leve
vestida de espera.
Crisálidas ao sol
Na carne da metáfora
Um sussurro da madrugada
ainda úmida de nós
irrompe em poesia
às portas cerradas
dos versos silenciados
que em mim agonizam
Letras em sinfonia
ecoam em correnteza
pelo gargalo do poema destilado
tomam de mim
meu olhar longínquo de amor
Pairam perfumes
sobre o retrato calado
um tremor de maré
alvorece em te querer
Te querer...
Não cabe mais na minha pele
é vertigem que transborda
pela fenda da palavra
goteja teu nome dissolvido
no contorno exausto do meu corpo
nunca esquecido
Nunca, nunca ... nunca!
E eu
já sem gramática
no sótão do meu silêncio
rasgo as vestes da lucidez
Em ruína, em desejo
insisto em renascer poesia
na carne da metáfora
desabo, inteira, em ti.
Miriam Li/Braga
O lado escuro do olhar
Um verso vestido de espera
Resto do Post
O verniz das tintas mortas
Resto do Post
Mãos sujas de origem
Resto do Post
O tremor do quase
Resto do Post
Partiu, mas não foi embora
Miriam Li/Braga
acrílica/lona
(100 x 65)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
A cor do impossível
Eclipse
Resto do Post
Tribnal de opiniões
Miriam Li/Braga
Afresco com grafite em pó
(135 x 85)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post






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