O oceano num balde de tinta
O oceano num balde de tinta
Busquei poesia
no barulho do sol poente
na inocência da sanguínea lua ..
no sussurro incandescente
de um punhado de estrelas
gritando céus
no extremo horizonte dourado
ao sabor da cadência do mar...
E no medo
do espetáculo das tempestades
do inverno dos dias molhados
Abrem-se as alas do silêncio inteiro
no estreito corredor
entre a carne do instante
e a vertigem da vida sem fim
O oceano num balde de tinta...
Deságua
nas paredes de arrimo
das encostas da minha vida
lavando véus opacos da lucidez
Nas asas dos meus sonhos
namoro
a imperfeição do outono
Passeio entre nuvens, manchas
seduzo o poema que me olha...
Calado
São letras em correnteza
olhares guardados em versos
sopros de saudades
dos afetos enterrados vivos
das estrelas inalcançadas
e das luas que não regressam
Fim do corredor
Sou quadro primeiro
esculpida de ausências
meu próprio chão
revirado em escolhas, coragem
paixão.
Miriam Li/Braga
Pinturas em acrílica e esmalte
Paredes de arrimo
Paredes de arrimo
Abro o portal dos sonhos
atravesso a película real
espio
a realidade paralela
na tela de seda do meu olhar
E sonho!
... sei que estou sonhando...
sem me dissolver
A eternidade entregue ao poema
respira calada
no corredor estreito
entre a carne do instante
e a vertigem da vida perpétua
Por livres e espontâneos
desejos próprios
não desenhei futuros...
Todos os meus sonhos
couberam num balde de tinta
Todos!
Sobrevivi sonhando
ao ranger dos dentes
e das engrenagens do mundo
Tenho nas mãos as digitais
do meu destino
untadas com grafite em pó
sem as grades invisíveis
da liberdade olhada
pelos olhos de aço do mundo
Permaneço
inteira
sem estilhaçar o silêncio
Insisto em ver beleza
nas manchas das paredes de arrimo
das encostas da minha vida
Não escondo o tempo
saboreio meus ciclos
distraio a fuga
Finco os pés no chão
sem pisotear passados.
Miriam Li/Braga
Afrescos/grafite em pó
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Silêncio armado
Silêncio armado
Inclino-me às palavras pensadas
e lavo os pés das não ditas
Pensadas
latejam versadas letras
com cor de inspiração
Contidas
escrevem silêncios mudos
enquanto a noite desaba
em seda e aço
sobre o peito da alma encarnada
Impostas
baioneta engatilhada
pronta para reescrever
lapsos e fendas do não-saber
Pólvora seca perdida
no abismo estreito
entre o existir e o dizer.
Palavras caladas
rastros de luz nos céus sem altar
onde a minha verdade habita
Agigantam-se
Inteiras
não se rendem às vestes de força
do saber legitimado
que vigiam as praças
Carregadas de mundo
desenham liberdade brutal em veludos...
E espinhos
que chicoteiam e beijam o poema
sob olhares incrédulos
que me olham nua, sem tarjas.
Miriam Li/Braga
afrescos/grafite em pó
(75 X 45) cada
Resto do Post
Poema sem borda
Poema sem borda
Roo as unhas da incompreensão
até a tinta virar oceano
não me reduzo para caber no verso
Precipito em mim
Encontro-me comigo
em qualquer versão
restos que não engolem limite
meu gesto range ossos à contramão
Criar é rasgar véus tintos
com as mãos feridas
não caber em forma alguma
quase se deixar conter...
E falhar
Recuso o contorno que resolve
defesa erguida como método
O meu olhar transborda
nas fendas onde o excesso respira
Sanguínea
a tela de seda e aço do meu olhar
desestabiliza o instante
Como tentar abrir uma porta
que talvez exista apenas
para não ser aberta
a linguagem não desenha o limite
berra
versos livres que tentam caber
nas vestes sem cor
do poema sem borda.
Miriam Li /Braga
grafite em pó/eucatex
2 telas
(122 X 122) cada
Poema sem lua
Poema sem lua
Lê - me agora
que a dor é vindoura
antes que o instante faleça
sobre o que ainda respira
Mesmo que o meu riso fácil
tonteie a lágrima calma
engane abismos vizinhos
Lê-me tu!
Enquanto finjo não ler
o último recado da aurora
que ruge como sentença seca
às portas do poema sem lua
Espero sem boca
a ensaiar o olhar
que me diria inteira
a te chamar
em vapores de poesia
Lê-me
atravessa o que não se diz
são letras antigas
com perfumes de te encontrar.
Miriam Li/Braga
afrescos/grafite em pó/água/lápis
Primeira parede que pintei
em 1996.
Gritos de origem
Gritos de origem
Resto do Post
Há um temor indizível
que veste o mundo
com cores que ele já não tem
Um sussurro da lembrança
enterrada viva
sob camadas de esquecimento
Uma esperança umbilical, calada...
Quem sou...
De onde eu vim...
Para onde vou..
O primeiro mundo
oceano sem memória
é gesto obscuro
que nos lançou à luz
Um poema inteiro sem gramática
somos eu, tu, nós...
E eles!
Os outros, antes...
sombras que nos habitam
como herança sem retrato
Esse resto de eternidade
sonâmbulo sobre a carne
Todos
herdeiros expulsos do ventre
abraço sem exílio
pendurado ao osso divino
Somos
esse intervalo ferido
entre o sopro e a queda
caídos num solo esquálido
Há um retorno
inscrito no abismo
que resiste à mudez da palavra
Rompe em gritos de origem
a ferida primordial em carne viva
que nos fundou
em tudo que insiste em amar.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(140 X 100)
0 olhar do tempo
Resto do Post
O olhar do tempo
Sob o olhar afiado do tempo
a voz do silêncio me chama
enquanto tua ausência
ainda respira na minha pele
Um fio de prata do horizonte
lambe meus cabelos
salga a pele da ventania
com perfume encharcado de mar
que ainda mora na minha boca
Repleto de ti
ainda há mar entre nós
este pulsar tardio
me despe
não troco de pele
eu te visto
Estremeço
Quando te penso
a falência lenta
fere
tudo o que não te disse
Não te disse... não te disse?!
O olhar do tempo
implacável, me atravessa
em lembranças me devora
sustenta-me no que restou
E eu
nem o vi passar...
Pálpebras caladas
derramam meus sonhos
sonhados acordada
Contigo
É verso
poema em ruína
paixão ...
Desmorono
Até que o olhar do tempo
me olhe
Me leve
vestida de espera.
Miriam Li/Braga
acrílica/grafite em pó/lápis/duplex
(98 X 67)
Crisálidas ao sol
Crisálidas ao sol
O olhar não fala
atravessa o silêncio e diz
sou a poesia contida
nos olhos de quem me lê
Eu e tu
Sensíveis como crisálidas ao sol
Somos um só verso
um poema sem pele
pendurado
no instante em que me olhas
No teu olhar
não sei solidão
O tempo hesita
a sós somos este poema
em criação
sem origem, sem moldura
Sem fim no silêncio
onde a arte e a poesia
simplesmente acontecem.
Miriam Li/Braga
acrílica/carpete
(100 X 75)
Na carne da metáfora
Na carne da metáfora
Um sussurro da madrugada
ainda úmida de nós
irrompe em poesia
às portas cerradas
dos versos silenciados
que em mim agonizam
Letras em sinfonia
ecoam em correnteza
pelo gargalo do poema destilado
tomam de mim
meu olhar longínquo de amor
Pairam perfumes
sobre o retrato calado
um tremor de maré
alvorece em te querer
Te querer...
Não cabe mais na minha pele
é vertigem que transborda
pela fenda da palavra
goteja teu nome dissolvido
no contorno exausto do meu corpo
nunca esquecido
Nunca, nunca ... nunca!
E eu
já sem gramática
no sótão do meu silêncio
rasgo as vestes da lucidez
Em ruína, em desejo
insisto em renascer poesia
na carne da metáfora
desabo, inteira, em ti.
Miriam Li/Braga
acrílica/carpete
(120 x90)
O lado escuro do olhar
O lado escuro do olhar
O lado sombrio
que sustenta vitrines da aparência
carrega enganos domesticados
A luz vestida de lâmpadas mortas
invisível a olho nu
inventa abismos
sob véus de mistérios tramados
O lado escuro do olhar
talvez nem exista...
O lado claro do escuro
Perfume
embalado para presente
nas prateleiras expostas
famintas
de aparência impune
Recalcado
não confessa o que devora
embrulha oferendas
com laços de inocência
E eu
para não caber nisso...
engulo poesia num gole só
abraço estrelas cadentes
conto incontáveis grãos da areia
Estremeço...
Caminho
entre nuvens de versos
para ouvir ondas dançantes do mar
aspirar maresia
expirar letras de liberdade
sem mastigar o poema.
Miriam LI/Braga
Desenho/grafite em pó e lápis
papel A4
Um verso vestido de espera
Um verso vestido de espera
Estou a caminho de ti
estive perdida... no tempo ferido
que nos separa
Há um tempo só nosso
que cabe inteiro no olhar
um verso sanguíneo no abraço
E no beijo...
o poema vivo
que sangra somente por amor
como se o horizonte fosse apenas
a distância viva
entre a tua boca e a minha
Sabemos
mais perto do que o céu
há um verso vestido de espera
onde o amor não precisa partir
para sempre
Estou a caminho
se me chamares, eu vou
para sempre...
Contigo
Dançar à luz da grande lua
no chão cúmplice da eternidade.
Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
{60 x 40}
Resto do Post
O verniz das tintas mortas
O verniz das tintas mortas
Não me retiro da realidade
vivo apesar da realidade
em fúria
com lascas de cor ferida
Caminho a passos lentos...
limpos
sobre o chão real
dos céus dos meus sonhos
Varro o meu caminho
com silêncio
ignoro excessos
da invisibilidade colorida
para não desaparecer em mim
Silencio
para sobreviver poesia
ao extraordinário de existir
Sensível com a crisálida
Abro caminhos entre versos
sem constranger o poema
Seduzo o destino
que me abraça sereno
venço batalhas invisíveis
sem espetáculos
Recolho olhares
que me escutam
a olhos nus
além dos enganos
do verniz de tintas mortas.
Míriam Li/Braga
Foto autoral
Resto do Post
Mãos sujas de origem
Mãos sujas de origem
Descasco o silêncio
até confessar meus sonhos
versados a olho nu
nas paredes inocentes
da memória
da minha alma menina
Uma multidão de silêncios
habitando o mesmo osso
Berros calados ecoam
correnteza de versos
a caminho do mar
Minhas mãos
sujas de origem ...
Pó
Revelam vestígios de mim
guardados
até encontrar o brilho
sobre o cal da incompreensão
Do pó....sou pedra diamante.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/eucatex
(100 x 70)
Resto do Post
O tremor do quase
O tremor do quase
Meu olhar incendeia
recusa
a folha do poeta
sobre a mesa desarrumada
Sei
ainda me chamas
como o beijo
que nos procura
Preciso desse lugar
onde o amor não se cumpre
Permaneço contorno
em combustão de quase
minha boca não diz
recua
para não trair o silêncio
que me desenha
Um risco vivo
a um passo do abismo
do teu castanho olhar
O traço vacila
Há em mim um verso trêmulo
entre o gesto e o encontro
minhas pálpebras exaustas
negam
noites de ausência
Não me chames!
Temo me tornar inteira
me entregar
perder este tremor do quase...
Teu olhar me percorre
como se me soubesse
poesia
Sem rima, fujo
finjo
mas não aconteceu poema.
Miriam Li/Braga
acrílica/papel camurça
(60 x 40)
Resto do Post
Partiu, mas não foi embora
Partiu, mas não foi embora
Sob o mesmo céu anil
de um arco-íris abandonado
confesso teu perfume
às portas do deserto
de um poema vazio de calor
Dilacerado
Destilada da ausência
a poesia feral uiva a dor
Escorre
Gota a gota
lateja
cospe letras de pedra
Sobraram beijos
enterrados vivos
sob a antiga pele
da boêmia poesia
Meu olhar cansado
esvaziado de mundo
escreve
oceanos de distância
Ainda somos
restos da paixão
que virou linguagem
Teu perfume...
À flor da minha pele
como barco mudo à deriva...
Partiu
mas não foi embora
Miriam Li/Braga
acrílica/lona
(100 x 65)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
A cor do impossível
A cor do impossível
Abre-se o portal dos sonhos
na tela de seda e aço do meu olhar
um sussurro de poesia
com cor de impossível
Entre nuvens tintas de sonhar
rostos à procura de céus
Voo sem partida
pulso trêmulo de pincel
na trama de ferro da realidade
Sem algemas
redecoro o chão do poema
até a tinta virar oceano
caminho entre nuvens
onde respira a poesia.
Miriam Li/Braga
Grafite em pó/papel A IV
Eclipse
Eclipse
Mostro-me inteira, nua
volta e meia
nua
escondo-me
em olhares nus sobre tela
Desapareço
e se me calo
não é ausência...
É eclipse
Porque a palavra em mim
não é ausência
não morre..
Orbita
como a poesia
na garganta do poema
como a gravidade sustenta o céu
Lateja
no silêncio vulcânico
que me escuta
ampara minhas quedas
com mãos de noite
Nascente
Despe meus ossos
e veste com pele de poesia
a carne viva da palavra
gesta
meus berros calados
que a lua rubra, silente, sangra
Miriam Li/Braga
acrílica/tecido lona
(125 x 80)
Resto do Post
Tribnal de opiniões
Tribunal de opiniões
Por livres
e espontâneos desejos
permaneço
no silêncio que me credita
É escolha pensada
fonte de inspiração criativa
lâmina, casulo, defesa...
E resposta
Indiferente
caminho sem olhar para trás
Não me enquadro
em vitrines de aprovação
não me justifico
ao tribunal de opiniões
máscaras antigas
armadas de nãos
Antes de ser ouvida...
Martelos de sentenças
não me freiam
respiro o ar raro
da liberdade de expressão
em território de coleiras invisíveis
Quase pedra
não levanto a voz
silencio para que me ouçam
Suporto
mas não me reduzo
em molduras emprestadas
Não peço explicações
sobre a minha arte...
Eu as tenho.
Miriam Li/Braga
Afresco com grafite em pó
(135 x 85)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
0 cansaço das estrelas
O Cansaço das estrelas
O infinito pendurado
num pedaço de horizonte
guardo no olhar
um instante de eternidade
um poema melindroso
deitado
num punhado de poesia
Sentença de beleza
fiéis são as estrelas
ausências que iluminam
a rudez do chão da noite
O ultimo suspiro de estrelas
que ninguém escuta
mudam de lugar
caem exaustas
enquanto meus versos
ainda respiram
no veludo do céu sonhado
No meu olhar vestido de sonhos
submerso em mar de tintas
continuam brilhando...
mesmo quando a luz
de cabelos brancos
já é só saudade
Se me olhas com olhar alheio
não me lês
se escutas o eco de ruídos tolos
não me ouves
permaneço pedra, assentada
Arranquem-me os olhos
mas não apaguem as estrelas.
Miriam Li/Braga
Fotomontagem
Resto do Post
E
![]() |
E
Ao sabor da minha arte
me entrego
respiro mar, céus, estrelas..
E a lua
A lua... feita de ausências
poesia viva
não precisa gestar luz
para iluminar o meu olhar
Há beleza de um abraço
no cortejo de estrelas
na pele da noite acesa
nos muros esquálidos
nas sarjetas ferida
que esqueceram o poema
E
nos enganos do sol
que finge verdades
vestidas de distância...
... A lua tem luz própria sim!
Meu olhar sobre telas
um punhado de eternidade
que carrego nas mãos
um adeus que nunca chega
meu vestido de renda
rasgado
na tempestade da indiferença
no perfume da lágrima calma
Nas madrugadas caladas
pinto versos
um sussurro de luz
bordado de silêncio
E
às vistas grossas da morte
semeio memórias
lembranças à beira do abismo
antes que ela me leia.
Miriam Li/Brag
Título do poema:
Título do quadro: Ás vistas grossas da morte
acrílica/papel camurça
(60 x 40)
Resto do Post
Meu caminho é de pedras... Preciosas
Meu caminho é de pedras...
preciosas
Em mim há um rumor de partida
meus passos caminham lentos
Hesitam
O chão parece repleto de dúvidas
... pisar numa estrada
que talvez nem exista
O amanhã ruge distante
Estremeço
dou um passo
e a alma se despedaça
na poeira dos instantes
recuo mas não volto
recolho vestígios de saudade
Letras em aliança
tentam gritar a mesma vertigem
que o traço revela
minha assinatura é território
que o meu silêncio sustenta
Há uma estrada
imensa, rasgando o mundo
como se fosse meu último verso
guardião do percurso
Uma encruzilhada
Meu olhar deseja o horizonte
minhas raízes presas ao ninho
às estações interiores
condenado a amar o impossível
Meu caminho é de pedras...
Preciosas.
Miriam Li/Braga
grafite/papel A IV
Resto do Post
Lábios do Universo
Lábios do universo
Quisera ter
a impetuosidade das águas do mar
que tanto me fascinam
avançar pelas areias da praia
até o termo onde alcançam a calma
E retornam
Sensível
como a crisálida
tenho o olhar com cor de poesia
transbordo em versos de amor
com sabor de maresia
Meu caminho é de pedras...
preciosas
Nos braços de poemas
pintados à luz da lua
navego céus abertos
entre estrelas marinhas
Cúmplice
Orquídea da noite, feita de ausências
beijo o abraço do sol e da lua
Existo
nesse raro encontro
Inteira
nos lábios do universo
Em verso.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(100 x 25)
Resto do Post
O beijo que nos procura
![]() |
O beijo que nos procura
Sabes que ontem eu te quis
como a chama da neve ardente
como poesia entregue ao poema
Letras de espera me consomem
em versos calados de te querer
Ainda
sou o desejo acorrentado
ao desespero do teu olhar de partida
Tantas vezes eu pensei gritar
no encontro fatal das nossas mãos
rasgar o tempo
implorar ao instante
do teu olhar querendo ficar
Sabes que ontem não vivemos
e que amanhã não somos
entre nós respira o silêncio
do beijo que nos procura .
Miriam Li/Braga
grafite/papel camurça
(60x40) cada
Resto do Post
Sussurros da noite
Sussurros da noite
Meu pensamento pulsa cosmos
Flui
regado a oceanos de estrelas
respiro céus que o universo guarda
Quando a noite sussurra estrelas
o poema adenso de mim
fratura o verniz opaco
dos véus inválidos impostos
Indiferente
ungida pelo luar de janeiro
observo auroras que não sei conter
nos corredores férteis do tempo
No silêncio vulcânico que me abriga
cada lágrima evapora em chama
no clarão ardente das eras líquidas
E ruge
na garganta das tempestades mudas
no túnel das lembranças feridas
que a minha pele bordada de luz
respira
Versos em brasa
fendem o poema em olhares calados
encharcam de poesia os céus siderais
Laços silenciosos
beijam a tela do meu infinito olhar
num abraço que só o silêncio traduz
E o poema, cioso, escuta.
Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
(90 x 60)
Resto do Post
O beijo do beija-flor
O beijo do beija-flor
O meu silêncio se cala para dizer
És tu!
o instante vivo
no meu olhar perdido
Derramado
no entardecer do mar extremo
no orvalho da lembrança bruta
na distância que não separa
o sol da lua
No beijo do beija-flor
abandonado
no desejo impiedoso de voltar
Silenciar é preciso
para que sonhos se reencontrem
é preciso não voltar
para que o desejo entre nós viva...
Inteiro
na quietude de lágrima calma
no silêncio da despedida
Infinito
na vastidão de um segundo
detido no poema silenciado
na carne crua
dos olhos do mundo.
MiriamLi/Braga
acrílica/MDF
(112 x 0,85)
Resto do Post
Dentes de leões
Dentes de leões
Eis-me
Descalça sobre o concreto ardil
das arenas de incompreensão
Sem escudo
Guardo lágrimas caladas
à soleira do grito
Dentes de leões rondam a poesia
lambem meus versos sem paisagem
machucam o brilho do silêncio
que me ilumina
Empunho a espada do afastamento
para não magoar o poema
para que a minha voz respire...
Liberdade!
Para que a minha palavra não sangre
na boca dos ruídos tolos
Nas ruelas feitas de pausas
a poesia sobrevive intacta
e eu, refugiada na renúncia do som
que me sustenta
Não ergo a voz
clamores cativos me entendem
acendem a luz do silêncio
onde o sentido faz ninho
Há verdades
que somente o silêncio pronuncia
Não aprendi a lutar, consinto a ferida
para que o poema fique inteiro
resguardo versos que ainda pulsam
no silêncio que é minha couraça
onde nem os leões alcançam.
Miriam Li/Braga
Desenho/eucatex
(90 x 60)
Devolva-me
Devolva-me
Quando teus lábios febris calam
o que teus olhos ardem em mim
sou pele exposta ao caos
às portas abertas do céu abismal
da tua boca em fúria
Devolva-me
O abraço roçado
guardado vivo, na voz do silêncio
entre nós dois
O sussurro do meu olhar
estático querendo gritar
tuas mãos com tremor de partida
querendo ficar
O sorriso do teu olhar no meu caido
devolva-me o ar
Ou respira comigo
Sou horizonte extremo
rasgado de espera
sei de ti, dissolvido em mim
a rondar-me em desejo antigo impune.
Miriam LI/Braga
acrilica/verniz/tela
(90 x 80)
Ossos da linguagem
Ossos da linguagem
Há dias em que me descubro saudade
um lamento sem rosto, sem nome
mudo, serpenteia rasgando silêncios
nos céus de dezembro que se insinua
Minhas pálpebras, exaustas
sonham estrelas do mar
o vento, estático, abandona o próprio destino
flores sem cor, desaprendem aromas
A respirar o vazio do poema
a tristeza entristece meus versos
letras feridas berram a mudez de papel
E sangram
Descascam dores antigas
até os ossos da linguagem
amargas
se aninham no meu olhar
e o mundo desaba em tintas cruas
Um sussurro trêmulo do pincel
recusa a mágoa e, num trapo de tela
exalam os olhares da minha alma
Escritos quase todos nus
sem qualquer ostentação
para que o brilho das vestes
e o ouro no alto dos concretos de
dezembro
não desviem e ofusquem
o brilho que trazem no olhar
Em cada silêncio estampado
um recanto de poesia
há luz nas frestas ocultas
nos véus de dezembro encantado
resta-me pintar uma nova aurora.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(100 x 85)
Resto do Post
Rio sem margens
Rio sem margens
A indiferença do meu olhar
finge a canção ausente
declama o poema estátua
Versos calados sofrem comigo
escorrem como rio sem margens
gota a gota
no abismo de não ser
No instante em que me olhas
sabes de mim a renúncia inteira
Em mim
O teu olhar que desviei
a tua boca que não beijei
a tua pele de me querer
Meus pés descalços sonham
o encontro
na distância e no tempo
grandes demais
para caberem entre nós dois
No meu pensamento ainda soletro
a canção que fingi não saber
nas tardes em que te quis.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
parte de afresco (210 x 100)
Madrugadas vadias
Quisera ser estrela cadente
riscar céus de nuvens vivas
estremecer a noite rasgando véus
no tumulto do silêncio
airar-me na correnteza dos ventos
na extrema altura dos altos céus
Na distância e no tempo
sou longe demais, sou perto demais
sou grão de areia abraçando o mar
Nas madrugadas vadias
sou gota trêmula à espera de um olhar
meu pensamento range o meu silêncio
Iluminado pelo luar que me inventa
Tenho o olhar que grita versos
sonho o destino, olhares, a lua
E o mar
A céu aberto
nas margens poéticas do mundo
entre a dor de partir e o desejo de chegar
sou poesia em convulsão
que a lua, rendida, em mim derrama.
Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
90 x 60)
https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/
Resto do Post
Raiz que rasga o chão
Raiz que rasga o chão
Versos em tinta versados, deslizam
beijam, devotados, a tela do meu olhar
brotam cálices com cores de flor
cada tépala um instante vivo de mim
que se abre em claridade
Taças tingidas, vazias de paisagem
seduzem o poema
têm o sabor do meu olhar recluso
para um mundo repleto de nãos
Tulipas na madrugada
não há espinhos
Indiferentes
aos ventos da indiferença
resistem nas bordas amargas do inverno
explodem, serenas, das minhas mãos
em direção à luz
Lançam raios perfumados de poesia
atravessam a noite
para encontrar auroras
Feito raiz que rasga o chão
meu nome floresce
do fundo intacto da terra fértil
encharcada do meu pensar
Respiro
versos nomeados
em tons de tulipas silenciosas
Insisto em ver beleza
no encanto pálido dos céus de Marte
nas cicatrizes secretas que do espelho
me olham
ainda com cor de sonhar estrelas.
Miriam Li/Braga
acrílica/madeira MDF
(75x 60) cada
Resto do Post
O beijo das letras mortas
O beijo das letras mortas
O painel murmura ausências
fere a cor da tela do meu olhar
na paisagem que falta
desejos suspensos estremecem
cicatrizes invisíveis na pele da cor
Indiferente à rudez da incompreensão
olhares em pleno voo
presos ao tempo sem cor
sobrevivem silenciosos
neste mundo que açoita e cala
Sob camadas de tinta fosca
latejam segredos da tela
recusam o poema que ruge
a quietude da dor
rejeitam o beijo das letras mortas
Na última fresta da cor
um rasgo de esperança
respira no instante estático
Versos enterrados vivos
aprenderam a respirar poesia
às portas do silêncio do fim.
Miriam Li/Braga
acrílica/tecido lona
(1,45 x 85)
Resto do Post
Luar de novembro
Luar de novembro
Sob o manto da noite voraz
meu olhar de desejo rendido
na ronda secreta dos sonhos
inflama o destino a te encontrar
Sanguíneo
Em busca de ti
esparrama-se febril em ondas
como verão escaldante
à procura do mar
Sob a luz do luar de novembro
meu corpo tardio, leito de esperas
guarda segredos nas veias do silêncio
repletos de ti
Em mim
brisa e tempestades do teu pulsar
Quero pousar nas tuas marés
latejar no rumor da tua pele
feito versos confessando ao poema
beijar estrelas cadentes
nas fronteiras do horizonte
ou nas areias do mar.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/papel A4
Resto do Post
Orvalho de lembrança
Orvalho de lembrança
O tempo é verso guardado
nas entrelinhas delirantes do poema
tecido no ventre da madrugada
respira perfumes amargos
encurta caminhos ao sabor das horas
finais
À beira do abismo de luz
a poesia, trêmula, suspende o pulso do mundo
beija estrelas-guia como quem escuta o silêncio do destino
Sob véus de retratos antigos
olhares fugitivos de gêmea solidão
às vésperas da eternidade
E ao findar destes versos
meu sonho se acende no cansaço das estrelas
há um orvalho de lembrança
sobre tua impune ausência
E o infinito
ensina ao destino
a amar em silêncio
na vastidão da existência.
Miriam Li/Braga
acrílica/papel camurça
60 x 40) cada.
Resto do Post
Voz de brisa
Voz de brisa
Há amores que vivem apenas no olhar
a eternidade num instante
Um fio de poesia percorre o poema
se demora em versos calados
letras que só o silêncio do olhar sabe
falar
Entre o olhar e o respiro
o mundo, num suspiro, silencia
o poema estremece, se inscreve
gota a gota
A poesia não narra o amor, ela o contém
o amor, quando se olha, é segredo universal
promessa que o tempo ainda namora
Há um verso inteiro, em cada sílaba quieta entre nós
Por toda a minha vida, este amor me habita
em suaves pousos clandestinos
da minha alma, no teu castanho olhar
E o poema
com voz de brisa, geme:
Só nós dois é que sabemos
o que o instante cala.
Miriam Li/Braga
afresco grafite em pó
parte de afresco ( 210 x 100)
Resto do Post
Véus do olhar
Véus escapam do poema tingido
jorram olhares
com cores que já não têm
A secura da névoa
que dança no fio da memória
reflete o espelho das cores fugidias
como rios que margeiam lembranças antigas
E a tela
muda de calor, finge sorrisos
a quietude das pálpebras grita
em olhares em êxtase e dor
e a boca chora
o próprio brilho impudico
Uma febre insana dobra a ruína
em enganos de beleza
devolve ao vazio de ser invisível
a esperança de ser cor outra vez
O pincel fere o silêncio
desbota o olhar sob véus de saudade
onde o azul esqueceu o céu
é gesto sonhado tentando existir
no eco das minhas mãos
Pintar é amar o impossivel
cada traço um suspiro
de um tempo em tons abandonados
que ainda respira em mim
Sob véu de espera do meu olhar inquieto
espero
que olhares de luz me queiram ver.
Miriam Li/Braga
acrilica/carpete
(100 x 90)
Resto do Post
Neste instante calado
Neste instante calado
No silêncio do pensamento que nos une
somos
instantes que o tempo não separa
ficas em mim
como o último encontro ao fim da tarde
e em ti, meu olhar suspira
à flor da tua pele acesa
Somos
versos que se inscrevem
no hálito das estrelas que, silentes, nos espiam
Neste instante calado
somos
o eco imortal de um beijo
olhar e abismo que florescem
lembrança que respira nas pausas da existência
Vozes que se olham
olhares que se escutam
silêncios que se tocam na ausência
respiram o perfume do encontro
que o destino não ousa apagar
Sou rosa-choque em preto e branco
o canto das folhas do outono da tua ausência
silêncio estridente, sou
És brilho cadente de um pássaro cigano
última tinta viva do meu versar
E o mundo
exausto, se cala em nós
sangra poesia
com se, ao nos amar
morresse de amor
Míriam Lima/Braga
argila/verniz
Resto do Post
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