O olhar que não quer ver
emudece o verso
desorganiza
os ossos da linguagem
O poema concreta a poesia
eterna
simplesmente acontece
A vida não
Atiraram a primeira pedra
contra o espelho primeiro
porque não suportaram
o rosto que ele devolveu
Aprendi com as paredes
antes que me ensinassem
os museus
Com a luz e a sombra
antes que as nomeassem
Aprendi com o espelho
Alguém havia desenhado
na caverna
Quem atirou a primeira pedra?
Atiraram pedras na água
chamaram de ruído
aquilo que eram ondas
Eu olhei
Acreditei
no meu próprio olhar
sem pedir autorização
A pedra faz barulho quando cai
o olhar não
continuo olhando
continuo vendo a nuvem
As manchas
Rostos
onde disseram
que havia apenas parede
Atiram pedras
a fenda vira prisma
nasce o verso
E o sonho
Aprendi a olhar com encanto
o que não está pronto
a ver beleza
onde decretaram ruína
Quem atirou a primeira pedra
fechou as pálpebras
não viu
o universo numa mancha
o oceano num balde de tinta
o céu inteiro num espelho
pendurado
à altura da cintura
Quem foi capaz de olhar
antes de atirá-la?
Míriam Li/Braga




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