Rio dos sonhos


Rio dos sonhos

Quando a noite desce
meu olhar se alonga para longe

Um desfiladeiro de versos partidos
geme poemas em agonia
fere o silêncio que em mim habita
cala berros torrenciais à beira do grito

Sinto
Intensa dor, muda, sem corpo
meus olhos
não me obedecem, teimam
e, antes que o meu olhar
alcance o brilho das estrelas
e o colorido das vidraças do céu
dão rasantes pelas sarjetas
pela miséria das calçadas nuas

Adormeço
no leito fértil do silêncio
sussurro
a cantiga dos ventos
banho-me de lua cheia
mergulho
nas águas sonoras
do rio dos sonhos

E sonho

O tempo se dissolve em pefumes
flutuo entre pétalas abandonadas
ainda vivas
como lembranças que respiram
na memória do impossível
meu olhar é fonte iluminada

Reencanto-me
amanheço derramada em poesia.

Miriam Li/Braga 

acrilica/carpete
(100 x 90)

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