Paredes de arrimo
Abro o portal dos sonhos
atravesso a película real
espio
a realidade paralela
na tela de seda do meu olhar
E sonho!
... sei que estou sonhando...
sem me dissolver
A eternidade entregue ao poema
respira calada
no corredor estreito
entre a carne do instante
e a vertigem da vida perpétua
Por livres e espontâneos
desejos próprios
não desenhei futuros...
Todos os meus sonhos
couberam num balde de tinta
Todos!
Sobrevivi sonhando
ao ranger dos dentes
e das engrenagens do mundo
Tenho nas mãos as digitais
do meu destino
untadas com grafite em pó
sem as grades invisíveis
da liberdade olhada
pelos olhos de aço do mundo
Permaneço
inteira
sem estilhaçar o silêncio
Insisto em ver beleza
nas manchas das paredes de arrimo
das encostas da minha vida
Não escondo o tempo
saboreio meus ciclos
distraio a fuga
Finco os pés no chão
sem pisotear passados.
Miriam Li/Braga
Afrescos/grafite em pó

