A última janela aberta
Abro as janelas da noite
entrego ao silêncio
o último suspiro da cor
Como um beijo morto
a lua, silente
derrama-se sobre mim
Passiva esfinge
testemunha da lágrima calma
que meus versos soluçam
Não me procures
comecei a partir
antes mesmo de abrir a porta
Antes que a aurora
me espie
ajoelhada sobre ausências
que em mim dormitam
penduradas nos meus ossos
Queria ficar
Deus sabe
que eu queria
Ficar
é ouvir, novamente
os passos de quem partiu
Apago as luzes
do corredor
Levo nas mãos
a última estrela astral
que ainda acreditava em mim
junto aos beijos
que morreram nos lábios meus
E os meus sapatos vermelhos
de salto agulha
Esvazio os bolsos
dos nomes
que ainda me queimam a boca
A noite fecha a porta
Desapareço
antes que alguém descubra
onde escondi
a última janela aberta
Há um céu inteiro
dentro da tela de seda e aço
do meu olhar
Mas nenhuma rua
sabe o meu destino
Deixo sobre a mesa
o caderno e aquilo
que já não me veste
E sigo
sem nem mesmo a certeza
de ter estado aqui.
Miriam Li/Braga
grafite em pó/eucatex
(100 X 65)

