Antes que a noite anoiteça
Um relâmpago estilhaçado
por um segundo
quebra o próprio céu
Revela
o rosto do mundo
O Universo inteiro fica sem segredos
Abre-se diante de mim
no extremo céu de agosto
Secretas
janelas de ausência
e o que a noite guardava
entregam-se à breve luz
Estremeço
vejo um pedaço da lua morta
e um punhado de estrelas
apagadas
sobre o telhado do meu silêncio
Um berro da eternidade
ensurdece a noite
Indiferente
rasga o véu da existência
Raios
sacodem o chão do poema
soterram meus versos
ainda vivos
e o rosto que tanto amei
sepultado na distância
Talvez a eternidade nem exista
Um clarão impossível
Um grito
Uma faísca brutal
que por um instante
devolve-me, em carne viva, ao princípio
antes que a noite anoiteça.
Miriam Li/Braga
acrilica/papel camurça
(60 X 40)

