Há um temor indizível
que veste o mundo
com cores que ele já não tem
Um sussurro da lembrança
enterrada viva
sob camadas de esquecimento
Uma esperança umbilical, calada...
Quem sou...
De onde eu vim...
Para onde vou..
O primeiro mundo
oceano sem memória
é gesto obscuro
que nos lançou à luz
Um poema inteiro sem gramática
somos eu, tu, nós...
E eles!
Os outros, antes...
sombras que nos habitam
como herança sem retrato
Esse resto de eternidade
sonâmbulo sobre a carne
Todos
herdeiros expulsos do ventre
abraço sem exílio
pendurado ao osso divino
Somos
esse intervalo ferido
entre o sopro e a queda
caídos num solo esquálido
Há um retorno
inscrito no abismo
que resiste à mudez da palavra
Rompe em gritos de origem
a ferida primordial em carne viva
que nos fundou
em tudo que insiste em amar.
Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó
(140 X 100)


