Filhos da pauta

Filhos da pauta

Abro os cadernos da infância
linha por linha
a palavra começa presa
a pauta é moldura
onde só se entra mutilado

Aprendi a amputar a carne do excesso
a dobrar a língua da imaginação
calar as orelhas da folha
e o desejo de transbordar
para caber no desenho

Gritar desejos em silêncio
para não sujar o molde

Esquálido

Cuspam
nos meus traços tortos
mas não apaguem de mim
a autoria  e as rasuras
da minha liberdade estética

Fora da pauta
sem rédeas espirituais
recuso a hóstia da teoria
querendo batizar minha fúria
em canteiros alheios

Inculta

Pedra viva
Transbordo, singular.

Miriam Li/Braga

Giz de cera e caneta esferográfica/
papel A 4


PS:
Somos, todos
Filhos da pauta mesmo
Julgamos, à revelia, a experiência de vida
uns dos outros.

Resto do Post

Ossos do poema

Ossos do poema

Lavo as vestes de espera
lágrimas, absinto

E fel

Estendo ao sol da manhã
o pano puido do sofá azul

Esquálido

Mudo o curso
da poeira da saudade
para não me vestir de ti

Um sussurro
de estrelas marinhas
penduradas em versos
com cor de sonhar
ecoa
nos ossos do poema

Abandonado
devora o veneno
da carne da memória

Livre
escolheu ficar

Descalço dos sapatos de chumbo
perambula na noite do meu peito

Chora
sem ferir a poesia

Estremece
para, finalmente
vestir-se de mim.

MiriamLi/Braga

A única janela aberta


A única janela aberta 

Releio páginas e páginas 
de silêncio 
engatilho letras livres
aprisionadas na garganta
do corredor da morte 

Respiro o boêmio poema 
disparo versos calados
até o papel em branco 
virar um grito
com vestes de poesia

Existo
a caminho do nada
bordado de ais guardados
no silêncio que me sustenta


Sei
o tempo não cabe 
nas minhas escolhas
é passo derradeiro

Sentença carimbada 
na minha pele exausta
desenhada na menina
dos meus olhos

Insisto em ver beleza 
na breve jornada da vida
vejo luz no fim do corredor
única janela que fica aberta

E o meu olhar de seda e aço 
não sabe 
se já sou apenas lembrança 
no perfume dos dias 
que fogem das minhas mãos.

Miriam Li/Braga 

acrilica/esponja
(87 X 65)

Um milímetro de silêncio

Um milímetro de silêncio 

O tempo goteja restos de espera
numa constrição de horas e silêncio 
versos desabam devagar
sobre entulhos no cortejo do fim

O poema sofre comigo

Sem lua
rasteja sobre a pálida folha
arranca letras futuras
reza versos antigos

Estremeço 
às portas da madrugada
vazia de calor

Um fio de poesia 
brota da tela de seda e aço 
do meu olhar

Revisito meus sonhos
abraço o poema já sem voz

Mudo, grita
um milímetro de silêncio 

Ruge a rudez de sobreviver
sem rimas 

Respira
à beira de um caminho
que talvez nem exista

Poesia bruta
casa mínima habitável.

Miriam Li/Braga 

afreco/grafite em pó 
(65 X 40)

A noite do instante

A noite do instante

Tua voz
se demora em partir

Inteira
além do som

Deságua em versos desertos
pelas ruas da madrugada
saliva entre silêncios
em carne viva
que aprendi a calar

Ainda somos
bocas famintas
aos pés da lua escarlate
de desejos

E mãos...

Existo
no cansaço do abraço
que não chega

Nunca

Estremeço
ao rumor da tua pele
como um berro calado
na garganta inflamada
do poema querendo voar

Desenho
o contorno dolorido
do peso do escuro
que desaba
com unhas e dentes
nas paredes mudas do poema
esculpindo a tua ausência

Às margens
do inverno febril do meu leito
um punhado de estrelas
ecoa teu perfume
nas auroras trêmulas

Da tua voz...

Tuas mãos!

Remendo páginas e páginas
do silêncio que range
a noite do instante

Rasgo as vestes de espera

Estremece o poema
repleto de pedaços

De ti.

Miriam Li/Braga

Resto do Post

acrílica/papel camurça
{60 x 40)

Uma sílaba tua

Uma sílaba tua

Meu riso em desespero
sorri
para a lágrima calma
que prestes a chorar

calada
pendurada no teu olhar...
grita renúncias
anuncia a partida

Rasga
o gélido toque do adeus
que me despe da alma

Escorre
nos lençóis da minha pele
querendo ficar

Ajoelho
sussurro ao poema
que apague estes versos
que o vento não leve
uma sílaba tua
nem a tua boca da minha...
ou morra comigo.

Miriam Li/Braga

Versos que apaguei
entre silêncios que aprendi calar.
Três pinturas inacabadas
acrílica/carpete
(110 X 90) cada





Quando já era quase adeus

Quando já era quase adeus

Um verso clandestino
acende o olhar
do poema que me olha...

Romântico

Derramado em brancas páginas
pede a palavra
arranca de mim
páginas interiores...

Desarrumadas

Que aprendiam distâncias
até virarem ausência habitável

Fecha as pálpebras do ruído
apaga a luz devagar
para não assustar a poesia

As horas sempre precisas
esquecem de partir

Ficamos pele
neste lugar estreito
onde as letras já conhecem o fim
e mesmo assim
não retiram as flores da mesa

Quando já era quase adeus
o tempo perdeu o passo
devolveu-me as cores
ao que sempre em mim esteve vivo

O meu coração desconfiado
descobre que também enxerga
abre páginas fechadas
há muitos invernos
onde o meu silêncio pulsa
e o poema ganha contorno

Há poemas
que me chegam como encontro
outros me atravessam
esperam-me 
às portas das madrugadas vadias
descongelam versos calados
quando já era quase adeus...

Miriam/Li/Braga
acrílica/papel camurça
(60 X 40)
 https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Mãos cheias de lua

Mãos cheias de lua

Abro as cortinas da noite
acolho o silêncio
luminoso dos astros
alfabeto cadente
que risca e rasga o breu

Sob céus noturnos
com mãos cheias de lua...

Respiro

Erguem-se constelações interiores
perfumes antigos tropeçam
na tontura dos ventos
encharcam a minha pele...

Recolho abraços que adiei

Aconteço poesia
em versos tintos
pelas ruas do poema
despida de certezas

Vestida
de olhares sobre tela...

Meu olhar acende distâncias
caminhos
que não me levam embora
inventa janelas vazias de adeus
onde havia muro
calado.

Miriam Li/Braga

acrílica e verniz/ duratex
(90 x 60) em andamento...
60%  preenchido.
Série com 15 quadros com esta técnica
que desenvolvi.

Resto do Post

Estátua esquálida

Estátua esquálida 

Numa noite de estrelas e lua
vem
acalma o tempo perdido

Vem
traz teu perfume, tua voz...

Tuas mãos 

Nos teus lábios de sussurros
o sabor cortante
do beijo impuro de quase morte

No teu olhar de me querer 
a declamação do abraço 
abrigo e precipício em versos
que o meu peito calado
pelas ruas do poema
em fúria, clama
Estremeço 
não sei o caminho...

Encontro entreaberto
inventado
no meu olhar que habitas

Ninguém mais... só tu!
quem partiu 
mas não foi embora

Vem
ainda estou aqui
sem segundo
vestida de espera-pedra
estátua esquálida. 

Miriam Li/Braga 

acrílica/verniz/duratex




O oceano num balde de tinta

O oceano num balde de tinta

Busquei poesia
no barulho do sol poente
na inocência da sanguínea lua ..
no sussurro incandescente
de um punhado de estrelas 
gritando céus
no extremo horizonte dourado
ao sabor da cadência do mar...

E no medo 
do espetáculo das tempestades 
do inverno dos dias molhados

Abrem-se as alas do silêncio inteiro
no estreito corredor
entre a carne do instante
e a vertigem da vida sem fim

O oceano num balde de tinta...

Deságua
nas paredes de arrimo
das encostas da minha vida
lavando véus opacos da lucidez

Nas asas dos meus sonhos
namoro
a imperfeição do outono

Passeio entre nuvens, manchas
seduzo o poema que me olha...

Calado

São letras em correnteza
olhares guardados em versos
sopros de saudades
dos afetos enterrados vivos
das estrelas inalcançadas
e das luas que não regressam

Fim do corredor

Sou quadro primeiro
esculpida de ausências
meu próprio chão
revirado em escolhas, coragem
paixão.

Miriam Li/Braga

Pinturas em acrílica e esmalte 

Paredes de arrimo

Paredes de arrimo

Abro o portal dos sonhos
atravesso a película real
espio
a realidade paralela
na tela de seda do meu olhar

E sonho!
    ... sei que estou sonhando...
sem me dissolver

A eternidade entregue ao poema
respira calada 
no corredor estreito 
entre a carne do instante
e a vertigem da vida perpétua 

Por livres e espontâneos 
desejos próprios 
não desenhei futuros...

Todos os meus sonhos
couberam num balde de tinta

Todos!

Sobrevivi sonhando
ao ranger dos dentes
e das engrenagens do mundo

Tenho nas mãos as digitais 
do meu destino 
untadas com grafite em pó 
sem as grades  invisíveis 
da liberdade olhada
pelos olhos de aço do mundo

Permaneço 
inteira
sem estilhaçar o silêncio 

Insisto em ver beleza
nas manchas das paredes de arrimo
das encostas da minha vida

Não escondo o tempo
saboreio meus ciclos
distraio a fuga

Finco os pés no chão 
sem pisotear passados.

Miriam Li/Braga 

Afrescos/grafite em pó 

https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Resto do Post

Silêncio armado

Silêncio  armado

Inclino-me às palavras pensadas
e lavo os pés das não ditas

Pensadas
latejam versadas letras 
com cor de inspiração 

Contidas
escrevem silêncios mudos
enquanto a noite desaba 
em seda e aço 
sobre o peito da alma encarnada

Impostas
baioneta engatilhada 
pronta para reescrever
lapsos e fendas do não-saber

Pólvora seca perdida
no abismo estreito
entre o existir e o dizer.

Palavras caladas
rastros de luz nos céus sem altar
onde a minha verdade habita

Agigantam-se

Inteiras
não se rendem às vestes de força
do saber legitimado 
que vigiam as praças 

Carregadas de mundo 
desenham liberdade brutal em veludos...

E espinhos
que chicoteiam e beijam o poema
sob olhares incrédulos 
que me olham nua, sem tarjas.

Miriam  Li/Braga 
afrescos/grafite em pó 
(75 X 45) cada

Resto do Post

Poema sem borda

Poema sem borda

Roo as unhas da incompreensão 
até a tinta virar oceano
não me reduzo para caber no verso

Precipito em mim

Encontro-me comigo
em qualquer versão 
restos que não engolem limite
meu gesto range ossos à contramão 

Criar é rasgar véus tintos
com as mãos feridas
não caber em forma alguma
quase se deixar conter...

E falhar

Recuso o contorno que resolve
defesa erguida como método 

O meu olhar transborda
nas fendas onde o excesso respira

Sanguínea 
a tela de seda e aço do meu olhar
desestabiliza o instante

Como tentar abrir uma porta
que talvez exista apenas 
para não ser aberta
a linguagem não desenha o limite
berra 
versos livres que tentam caber 
nas vestes sem cor
do poema sem borda.

Miriam Li /Braga 

grafite em pó/eucatex
2 telas 
(122 X 122) cada



Poema sem lua

Poema sem lua

Lê - me agora
que a dor é vindoura
antes que o instante faleça
sobre o que ainda respira

Mesmo que o meu riso fácil 
tonteie a lágrima calma
engane abismos vizinhos

Lê-me tu!

Enquanto finjo não ler
o último recado da aurora
que ruge como sentença seca
às portas do poema sem lua

Espero sem boca
a ensaiar o olhar
que me diria inteira
a te chamar
em vapores de poesia

Lê-me
atravessa o que não se diz
são letras antigas
com perfumes de te encontrar.

Miriam Li/Braga 
afrescos/grafite em pó/água/lápis 
Primeira parede que pintei
em 1996.


Gritos de origem



Gritos de origem

Há um temor indizivel
que veste o mundo
com cores que ele já não tem

Um sussurro da lembrança
enterrada viva
sob camadas de esquecimento

Uma esperança umbilical, calada

Quem sou...
De onde eu vim...
Para onde vou..

O primeiro mundo
oceano sem memória
é gesto obscuro
que nos lançou à luz

Um poema inteiro sem gramática
somos eu, tu, nós...

E eles!

Os outros, antes
sombras que nos habitam
como herança sem retrato

Esse resto de eternidade
sonâmbulo sobre a carne

Todos
herdeiros expulsos do ventre

Abraço sem exílio
pendurado ao osso divino

Somos
esse intervalo ferido
entre o sopro e a queda
caídos num solo esquálido

Há um retorno
inscrito no abismo
que resiste à mudez da palavra

Rompe em gritos de origem
a ferida primordial em carne viva
que nos fundou
em tudo que insiste em amar.

Miriam Li/Braga 

Miriam Li/Braga 
afresco/grafite em pó 
(140 X 100)






0 olhar do tempo


Resto do Post


O olhar do tempo

Sob o olhar afiado do tempo
a voz do silêncio me chama
enquanto tua ausência
ainda respira na minha pele

Um fio de prata do horizonte
lambe meus cabelos
salga a pele da ventania
com perfume encharcado de mar
que ainda mora na minha boca

Repleto de ti

Ainda há mar entre nós
este pulsar tardio
me despe
não troco de pele
eu te visto

Estremeço

Quando te penso
a falência lenta
fere
tudo o que não te disse

Não te disse... não te disse?!

O olhar do tempo
implacável, me atravessa
em lembranças me devora
sustenta-me no que restou

E eu
nem o vi passar

Pálpebras caladas
derramam meus sonhos
sonhados acordada...

Contigo

É verso
poema em ruína
paixão

Desmorono

Até que o olhar do tempo
me olhe

Me leve
vestida de espera.

Miriam Li/Braga
acrílica/grafite em pó/lápis/duplex
(98 X 67)

Crisálidas ao sol

Crisálidas ao sol

O olhar não fala 
atravessa o silêncio e diz
sou a poesia contida
nos olhos de quem me lê 

Eu e tu
Sensíveis como crisálidas ao sol

Somos um só verso
um poema sem pele 
pendurado 
no instante em que me olhas

No teu olhar
não sei solidão 

O tempo hesita
a sós somos este poema
em criação 
sem origem, sem moldura

Sem fim no silêncio 
onde a arte e a poesia 
simplesmente acontecem.

Miriam Li/Braga
acrílica/carpete
(100 X 75)

 https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Na carne da metáfora

Na carne da metáfora 

Um sussurro da madrugada
ainda úmida de nós
irrompe em poesia
às portas cerradas
dos versos silenciados
que em mim agonizam

Letras em sinfonia
ecoam em correnteza
pelo gargalo do poema destilado
tomam de mim
meu olhar longínquo de amor

Pairam perfumes
sobre o retrato calado
um tremor de maré
alvorece em te querer

Te querer...

Não cabe mais na minha pele
é vertigem que transborda
pela fenda da palavra
goteja teu nome dissolvido
no contorno exausto do meu corpo
nunca esquecido

Nunca, nunca ... nunca!

E eu
já sem gramática
no sótão do meu silêncio
rasgo as vestes da lucidez

Em ruína,  em desejo
insisto em renascer poesia
na carne da metáfora
desabo, inteira, em ti.

Miriam Li/Braga 

Miriam Li/Braga  
acrílica/carpete
(120 x90)

O lado escuro do olhar

O lado escuro do olhar 

O lado sombrio 
que sustenta vitrines da aparência
carrega enganos domesticados

A luz vestida de lâmpadas mortas
invisível a olho nu
inventa abismos
sob véus de mistérios tramados
 
O lado escuro do olhar
talvez nem exista...

O lado claro do escuro

Perfume
embalado para presente
nas prateleiras expostas 
famintas
de aparência impune

Recalcado
não confessa o que devora
embrulha oferendas
com laços de inocência 

E eu
para não caber nisso...
engulo poesia num gole só 
abraço estrelas cadentes
conto incontáveis grãos da areia

Estremeço...

Caminho 
entre nuvens de versos
para ouvir ondas dançantes do mar
aspirar maresia
expirar letras de liberdade
sem mastigar o poema.

Miriam LI/Braga
Desenho/grafite em pó e lápis 
papel A4

Um verso vestido de espera

Um verso vestido de espera

Estou a caminho de ti
estive perdida... no tempo ferido
que nos separa

Há um tempo só nosso
que cabe inteiro no olhar
um verso sanguíneo no abraço

E no beijo...
o poema vivo
que sangra somente por amor
como se o horizonte fosse apenas
a distância viva
entre a tua boca e a minha

Sabemos
mais perto do que o céu
há um verso vestido de espera
onde o amor não precisa partir
para sempre

Estou a caminho
se me chamares, eu vou 
para sempre...

Contigo

Dançar à luz da grande lua
no chão cúmplice da eternidade.

Miriam Li/Braga
acrílica/eucatex
{60 x 40}

Resto do Post