O beijo do beija-flor

O beijo do beija-flor 

O meu silêncio se cala para dizer
És tu!
o instante vivo no meu olhar

Derramado

No entardecer do mar extremo
no orvalho da lembrança bruta
na distância que não separa
o sol da lua

No beijo do beija-flor

Abandonado
no desejo impiedoso de voltar

Silenciar é preciso
para que sonhos se reencontrem

É preciso não voltar
para que o desejo entre nós viva...

Inteiro
na quietude de lágrima calma
no silêncio da despedida

Infinito
na vastidão do segundo
acorrentado no porão do poema

Para existir

Silenciado
na carne crua
dos olhos de aço

Do mundo.

MiriamLi/Braga

MiriamLi/Braga 

acrílica/MDF
(112 x 0,85)

Resto do Post

Dentes de leões

Dentes de leões

Eis-me

Descalça sobre o concreto ardil
das arenas de incompreensão

Sem escudo

Guardo lágrimas caladas
à soleira do grito

Dentes de leões rondam a poesia
lambem meus versos sem paisagem
machucam o brilho do silêncio
que me ilumina

Empunho a espada do afastamento
para não magoar o poema
para que a minha voz respire...

Liberdade!

Para que a minha palavra não sangre
na boca dos ruídos tolos

Nas ruelas feitas de pausas
a poesia sobrevive intacta
e eu, refugiada na renúncia do som
que me sustenta

Não ergo a voz
clamores cativos me entendem
acendem a luz do silêncio
onde o sentido faz ninho

Há verdades
que somente o silêncio pronuncia

Não aprendi a lutar, consinto a ferida
para que o poema fique inteiro
resguardo versos que ainda pulsam
no silêncio que é minha couraça
onde nem os leões alcançam.

Miriam Li/Braga
Desenho/eucatex
(90 x 60)

Devolva-me

Devolva-me 

Quando teus lábios febris calam
o que teus olhos ardem em mim
sou pele exposta ao caos
às portas abertas do céu abismal
da tua boca em fúria 

Devolva-me 

O abraço roçado 
guardado vivo, na voz do silêncio 
entre nós dois 

O sussurro do meu olhar 
estático querendo gritar
tuas mãos  com tremor de partida
querendo ficar 

O sorriso do teu olhar no meu caido
devolva-me o ar 

Ou respira comigo 

Sou horizonte extremo
rasgado de espera 
sei de ti, dissolvido em mim
a rondar-me em desejo antigo  impune. 

Miriam LI/Braga
acrilica/verniz/tela
(90 x 80)

Ossos da linguagem

Ossos da linguagem 

Há dias em que me descubro saudade
um lamento sem rosto, sem nome
mudo, serpenteia rasgando silêncios 
nos céus de dezembro que se insinua 

Minhas pálpebras, exaustas 
sonham estrelas do mar
o vento, estático, abandona o próprio destino
flores sem cor, desaprendem aromas 

A respirar o vazio do poema
a tristeza entristece meus versos 
letras feridas berram a mudez de papel 

E sangram 

Descascam dores antigas
até os ossos da linguagem
amargas
se aninham no meu olhar
e o mundo desaba em tintas cruas 

Um sussurro trêmulo do pincel
recusa a mágoa e, num trapo de tela
exalam os olhares da minha alma 

Escritos quase todos nus
sem qualquer ostentação 
para que o brilho das vestes
e o ouro no alto dos concretos de
dezembro
não desviem e ofusquem 
o brilho que trazem no olhar 

Em cada silêncio estampado
um recanto de poesia 
há luz nas frestas ocultas
nos véus de dezembro encantado
resta-me pintar uma nova aurora. 

Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó 
(100 x 85)

Resto do Post

Rio sem margens

8
Rio sem margens

A indiferença do meu olhar
finge a canção ausente
declama o poema estátua

Versos calados sofrem comigo
escorrem como rio sem margens
gota a gota
no abismo de não ser

No instante em que me olhas
sabes de mim a renúncia inteira

Em mim

O teu olhar que desviei
a tua boca que não beijei
a tua pele de me querer

Meus pés descalços
sonham o encontro
na distância e no tempo
grandes demais
para caberem  entre nós dois

No meu pensamento
ainda soletro a canção
que fingi não saber
nas tardes em que te quis.

Miriam Li/Braga

afresco/grafite em pó 
parte de afresco (210 x 100)
Madrugadas vadias 

Quisera ser estrela cadente
riscar céus de nuvens vivas 
estremecer a noite rasgando véus 
no tumulto do silêncio 
airar-me na correnteza dos ventos
na extrema altura dos altos céus 

Na distância e no tempo 
sou longe demais, sou perto demais
sou grão de areia abraçando o mar 

Nas madrugadas vadias
sou gota trêmula à espera de um olhar
meu pensamento range o meu silêncio 
Iluminado pelo luar que me inventa 

Tenho o olhar que grita versos
sonho o destino, olhares, a lua 

E o mar 

A céu aberto
nas margens poéticas do mundo
entre a dor de partir e o desejo de chegar
sou poesia em convulsão 
que a lua, rendida, em mim derrama. 

Miriam Li/Braga

acrílica/eucatex 
90 x 60)

https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Resto do Post

Raiz que rasga o chão

Raiz que rasga o chão 

Versos em tinta versados, deslizam
beijam, devotados, a tela do meu olhar 
brotam cálices com cores de flor
cada tépala um instante vivo de mim
que se abre em claridade 

Taças tingidas, vazias de paisagem
seduzem o poema 
têm o sabor do meu olhar recluso
para um mundo repleto de nãos 

Tulipas na madrugada
não há espinhos 

Indiferentes 
aos ventos da indiferença 
resistem nas bordas amargas do inverno
explodem, serenas, das minhas mãos
em direção à luz 

Lançam raios perfumados de poesia 
atravessam a noite 
para encontrar auroras 

Feito raiz que rasga o chão
meu nome floresce 
do fundo intacto da terra fértil 
encharcada do meu pensar 

Respiro
versos nomeados
em tons de tulipas silenciosas 

Insisto em ver beleza 
no encanto pálido dos céus de Marte 
nas cicatrizes secretas que do espelho
me olham
ainda com cor de sonhar estrelas. 

Miriam Li/Braga

acrílica/madeira MDF
(75x 60) cada

Resto do Post

O beijo das letras mortas

O beijo das letras mortas 

O painel murmura ausências 
fere a cor da tela do meu olhar
na paisagem que falta
desejos suspensos estremecem
cicatrizes invisíveis na pele da cor 

Indiferente à rudez da incompreensão 
olhares em pleno voo
presos ao tempo sem cor
sobrevivem silenciosos
neste mundo que açoita e cala 

Sob camadas de tinta fosca
latejam segredos da tela
recusam o poema que ruge 
a quietude da dor
rejeitam o beijo das letras mortas 

Na última fresta da cor
um rasgo de esperança 
respira no instante estático 

Versos enterrados vivos
aprenderam a respirar poesia
às portas do silêncio do fim. 

Miriam Li/Braga

acrílica/tecido lona
(1,45 x 85)

Resto do Post

Luar de novembro

Luar de novembro

Sob o manto da noite voraz
meu olhar de desejo rendido
na ronda secreta dos sonhos 
inflama o destino a te encontrar 

Sanguíneo 

Em busca de ti
esparrama-se febril em ondas
como verão escaldante 
à procura do mar 

Sob a luz do luar de novembro
meu corpo tardio, leito de esperas
guarda segredos nas veias do silêncio 
repletos de ti 

Em mim
brisa e tempestades do teu pulsar 

Quero pousar nas tuas marés 
latejar no rumor da tua pele
feito versos confessando ao poema
beijar estrelas cadentes
nas fronteiras do horizonte
ou nas areias do mar. 

Miriam Li/Braga 

grafite em pó/papel A4

Resto do Post

Orvalho de lembrança

Orvalho de lembrança 

O tempo é verso guardado 
nas entrelinhas delirantes do poema
tecido no ventre da madrugada
respira perfumes amargos
encurta caminhos ao sabor das horas
finais 

À beira do abismo de luz
a poesia, trêmula,  suspende o pulso do mundo
beija estrelas-guia como quem escuta o silêncio do destino 

Sob véus de retratos antigos
olhares fugitivos de gêmea solidão 
às vésperas da eternidade 

E ao findar destes versos
meu sonho se acende no cansaço das estrelas 
há um orvalho de lembrança 
sobre tua impune ausência 

E o infinito 
ensina ao destino 
a amar em silêncio 
na vastidão da existência. 

Miriam Li/Braga

acrílica/papel camurça 
60 x 40)  cada.

Resto do Post

Voz de brisa

Voz de brisa 

Há amores que vivem apenas no olhar
a eternidade num instante 

Um fio de poesia percorre o poema  
se demora em versos calados
letras que só o silêncio do olhar sabe
falar 

Entre o olhar e o respiro 
o mundo, num suspiro, silencia
o poema estremece, se inscreve
gota a gota 

A poesia não narra o amor, ela o contém 
o amor, quando se olha, é segredo universal
promessa que o tempo ainda namora

Há um verso inteiro, em cada sílaba quieta entre nós 

Por toda a minha vida, este amor me habita
em suaves pousos clandestinos
da minha alma, no teu castanho olhar 

E o poema
com voz de brisa, geme: 

Só nós dois é que sabemos 
o que o instante cala. 

Miriam Li/Braga 

afresco grafite em pó 
parte de afresco ( 210 x 100)

Resto do Post

Véus do olhar 

Véus escapam do poema tingido
jorram olhares 
com cores que já não têm 

A secura da névoa 
que dança no fio da memória 
reflete o espelho das cores fugidias 
como rios que margeiam lembranças antigas 

E a tela
muda de calor, finge sorrisos 
a quietude das pálpebras grita 
em olhares em êxtase e dor
e a boca chora 
o próprio brilho impudico 


Uma febre insana dobra a ruína 
em enganos de beleza
devolve ao vazio de ser invisível 
a esperança de ser cor outra vez 

O pincel fere o silêncio 
desbota o olhar sob véus de saudade
onde o azul esqueceu o céu 
é gesto sonhado tentando existir
no eco das minhas mãos 

Pintar é amar o impossivel
cada traço um suspiro
de um tempo em tons abandonados
que ainda respira em mim 

Sob véu de espera do meu olhar inquieto
espero
que olhares de luz me queiram ver.


Miriam Li/Braga 

acrilica/carpete
(100 x 90)


Resto do Post

Neste instante calado

Neste instante calado

No silêncio do pensamento que nos une 

somos
instantes que o tempo não separa
ficas em mim 
como o último encontro ao fim da tarde
e em ti, meu olhar suspira 
à flor da tua pele acesa 

Somos
versos que se inscrevem
no hálito das estrelas que, silentes, nos espiam 

Neste instante calado 
somos 
o eco imortal de um beijo
olhar e abismo que florescem
lembrança que respira nas pausas da existência 

Vozes que se olham
olhares que se escutam
silêncios  que se tocam na ausência 
respiram o perfume do encontro
que o destino não ousa apagar 

Sou rosa-choque em preto e branco
o canto das folhas do outono da tua ausência 
silêncio estridente, sou 

És brilho cadente de um pássaro cigano
última tinta viva do meu versar 

E o mundo 
exausto, se cala em nós
sangra poesia 
com se, ao nos amar
morresse de amor 

Míriam Lima/Braga 

argila/verniz

Resto do Post

Rio dos sonhos


Rio dos sonhos

Quando a noite desce
meu olhar se alonga para longe

Um desfiladeiro de versos partidos
geme poemas em agonia
fere o silêncio que em mim habita
cala berros torrenciais à beira do grito

Sinto
Intensa dor, muda, sem corpo
meus olhos
não me obedecem, teimam
e, antes que o meu olhar
alcance o brilho das estrelas
e o colorido das vidraças do céu
dão rasantes pelas sarjetas
pela miséria das calçadas nuas

Adormeço
no leito fértil do silêncio
sussurro
a cantiga dos ventos
banho-me de lua cheia
mergulho
nas águas sonoras
do rio dos sonhos

E sonho

O tempo se dissolve em pefumes
flutuo entre pétalas abandonadas
ainda vivas
como lembranças que respiram
na memória do impossível
meu olhar é fonte iluminada

Reencanto-me
amanheço derramada em poesia.

Miriam Li/Braga 

acrilica/carpete
(100 x 90)

Resto do Post

Dois passos de dança

Dois passos de dança 

Abro as cortinas secretas da minha alma
não há plateia e nem aplauso
apenas o eco do meu próprio ser
que ressoa sem temor
nas paredes contentes dos sonhos meus 

Danço para um mar de ausências 
para não morrer em mim
quando o silêncio rasga a carne
com unhas de seda e aço 
manchada por lágrimas antigas 

O palco dormente acorda
nos meus pés, o pó do tempo cintila
nos meus olhos, uma lembrança de nada
no ar, perfume de sonho que não quer acordar 

O chão range um sorriso reverente
cada passo, uma confissão que o meu corpo grita 

Sou!
minhas pernas de balé
lanças de luz que riscam o ar
falam por mim 

Há um instante antes do fim
respiro o ar com cor de encanto
canto o meu silêncio em tom maior
ao sabor da cadência além do som 

Ainda sou inteira, há poesia em mim 

Sou
dois passos de dança
que ninguém me viu dançar 

Ninguém! 

Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó 
(7 x 4)

Colar de lágrimas

Colar de lágrimas 

O poema chora no colo da aparência 
carrega na altivez de pedra
um colar de lágrimas 
nascido do ventre ferido 

Polido de ímpar solidão, antiga vitrine 
eterno véu, esconde mares em fúria
berros submersos em mim
que não alcançaram a maré 

Acalmado o furor
sou apenas renda de ausências
que se rasga na luz 

Meu olhar naufraga
no espelho do anfiteatro do mundo
meus desejos, lapidados em vaidade
são poesias que não vivi 

Sou moldura de silêncio emocionado
sorrio com o rosto
desfaço-me com o olhar de maresia 

E o sorriso 

É só o resto do rosto 
            que ainda sabe fingir. 

Miriam Li/Braga
acriica/papel camurça 
(60 x 40)

Resto do Post

Estou indo embora

Estou indo embora 

No retrato golpeado
sou contorno que restou da luz
minto um sorriso embalsamado
com cores que já não tem
eco da carne
de quem hoje é só papel

A moldura
é porta aberta do silêncio
mas ainda escuto
o rumor da minha alma

Estou indo embora
de vestes nua
tentando escapar do ventre da noite
a pele em ruína civil
é carcaça egoísta de alma

Não sei
se já sou apenas lembrança
ou ausência visível
a caminho do começo invisível do fim

Resta-me
a inocência do meu ombro

Nu

a seduzir o olhar do esquecimento
como se tivesse olhos de me querer

Estou indo embora.

Miriam Li/Braga

Grafite em pó/eucatex 
(70 x 60)

Resto do Post

Um poema sem poesia

Um poema sem poesia 

Não há vida... nem morte 
a inexistência
do sabor de amanhecer
deitada 
na sarjeta suja de não ser 

Embriagado de vazio
à espera do nada
um poema, sem poesia
verte 
da quietude da dor 
grita 
por um mundo menos nítido 

Há um silêncio de vidro 
ao meu redor 

Ninguém me espera 

Tenho o hálito amargo do que já desisti 

Se eu entrasse 
para dentro de um copo de  cachaça 

O chão me entenderia 

E eu, líquida 
derramada em indiferencas cruas
e memórias que me afundam 
em lágrimas de desespero 
seria um vulto 
dissolvido em particulas 
de ressaca do mundo 

Meus ombros em rendição 
já não sustentam 
a minha sombra nua
que ainda respira um instante 
que nunca termina 

O abismo me beija em silêncio
como se esperasse apenas por mim
ameaço negar as minhas lutas
resistir... 

Vazia de calor,  me entrego 

A água celeste 
banha meu corpo esquálido
respiro o rio das almas
gota a gota
enquanto lava a lama 
dos olhos do mundo 

Tenho as pernas secas de consolo
sem asas para voar
quero caber num copo 
que me beba inteira
num gole só 
como quem sabe 
que eu não volto mais.

Miriam Li/Braga 

grafite em pó/eucatex 
( 60 x 50)

Resto do Post

Se me queres

Se me queres 

Se me queres

teus olhos
me dizem o quanto te importo
rompem a cortina do meu silêncio

Clamam
como se soubessem do desejo
que o meu corpo ainda cala

Se me queres, fico contigo
meu abraço
ainda é promessa
aguardando
o instante de ser beijo

Sou o que te percorre
quando te vejo
o que em ti me reconhece

Teus olhos me olham
na vertigem do meu olhar
onde o corpo se dissolve em febre

Tuas pupilas
crescem nas minhas
como se o céu
coubesse num instante
trêmulo de nós dois

O amor
simplesmente acontece
se divide para ser inteiro

Dois corpos que se pressentem
antes do gesto

Se olham
no rumor do leito real dos sonhos
e, no lençol de silêncio que espera
fazem da distância suspiros da pele

Somos versos do mesmo poema

Trêmulo
grita na carne do destino fiel
com letras do céu da tua boca

Se me queres
esqueço o aceno final

O adeus

Pendurado no teu olhar de partida.

Miriam Li/Braga
acrilica/eucatex.

Resto do Post

A fuga da sereia

A fuga da sereia Carrego vestígios vivos do mar são águas do esquecimento maresias antigas ainda me perseguem nas minhas mãos um punhado de mar No asfalto um perfume de abandono exala dos meus passos nus já não canto Meus sapatos sabem mais de mim do que o sal que me inventou traços de mim amargam os caminhos que renunciei 

Sou o intervalo entre um passo e a ressaca
um quase adeus
ecoando o rumor das ondas

Ainda me chamam...
Já não respondo aos apelos do mar
feita de espumas aprendi a secar

Se a maré subir
que lave e leve meus sapatos
são gritos por retorno que não me levam mais

No cimento sem calor há letras de permanência
petrificaram meus versos

Deixo o espelho do mar
promessa de abismo azul

sonhei ser sereia...

para caminhar descalça
à beira do concreto cinza dos dias finais.

Miriam Lima

acrílica/grafite em pó/eucatex
(90 x 60)

Resto do Post

Que amor é esse!...

Que amor é  esse?!

Que amor é esse
que martela a tua presença

No meu olhar

Rasga o meu respirar
como lâmina de fascínio
na carne da esperança

Saio de mim a te procurar
na profundeza dos meus sonhos
no sopro cálido dos ventos uivantes
no rumor das esquinas do meu ser
na brisa do mar...

Quando chove em mim
fecho minhas pálpebras
de ausências torrentes

Florescem outra vez
tão perto

Tão longe
no deserto árido da distância
na rudeza do afeto ferido sem corpo
no cárcere manso da lágrima calada
na voz oculta do véu da noite

Não quero estar sem ti

A espera
às portas dos meus sentimentos inquietos
espera
tem a cor de espelho do teu infinito olhar

Que amor é esse?!
com sabor de eternidade.

Miriam Li/Braga

acrilica/madeira/compensado
(90 x 60)

Resto do Post

Eu e ela

Eu e ela

Somos um mesmo poema

Vivo
respira entre a luz e a sombra que sou

Na extrema altura do céu

Um encontro

Luz e sombra juntas
tecidas no mesmo verso

Eu e ela

Rompemos
o precipício abissal da alma
trilhamos o mesmo destino
a palavra da carne
e o vestigio da ausência

Juntas

Sou
a luz que fere o dia
o instante onde ela respira

Ela
a sombra que me abraça
faz do meu silêncio morada
assiste meus gritos
silencia minhas quedas
consome meus segredos
.
Eu e ela

Laços de um véu dourado
que o tempo não rasga
dança antiga
como o canto das estrelas

Eu
tempestade da pele
Ela
guarda o que em mim se cala

A confissão que o silêncio abriga.

Miriam Li/Braga
afresco/grafite em pó 
(55 x 40)

Resto do Post

Corpo de delito

 Corpo de delito

Negaram-lhe o direito
de ser carne e pensamento
a voz aprisionada entre juízes mudos
exibiram os ossos
como troféu amputado da moral
pendurados nas vitrines espelhadas
da decência pálida

Corpo de delito

Nada mais que um número
carimbado
na pele gélida
um rótulo sujo que sangra

Um ninguém! Fétido!

Sentença que arde no espelho eterno
resto de um crime que renasce em arte

Só queria existir...  respirou culpa
bebeu o fel das horas negadas

Sob a pele machucada
havia um grito

A culpa de nascer com alma

O corpo esvaziado, sem retrato
o nome cravado
no aço do esquecimento

A palavra
que nasce do corpo julgado
do sangue e das cinzas da humilhação
vira gesto doloso

A arte, poema
último fôlego, lâmina que fala

Eternidade viva
como o silêncio perpétuo 
ainda respira na cruz.

Miriam Li/Braga
Desenho/papel A4

Letras do silêncio

Letras do silêncio

O meu silêncio tem voz
meus desejos, rosto

A boca
é cárcere da palavra calada
a dor dorme sem nome
nos porões da tristeza
vazia de calor

Afetos
repousam pela ruína da alma

Entre duas letras informes
encontrei o destino inteiro
respira em minhas narinas
como beijo suspenso no ar
guarda segredos da dor
que não se agita

Vesti o silêncio
como veste que cobre a pele
e no lábio púdico
o fogo da tua ausência
que não se apaga

Cada vestígio teu
é abismo que me chama
guardo nele a cicatriz do teu lábio

Impúdico
ardendo como vinho antigo

Um beijo
que me cresce nas narinas
transfigura o ar em desejo
sopro que me acendeu
na carne dos olhos

A letra
que deixaste no meu olhar
chave de uma prisão antiga

Sem portas

Desvenda a ousadia
que nem às pedras confesso.

Miriam Li/Braga 

Desenho premiado
XIII Salão Internacional de Artes Plásticas 
Proyecto Cultural Sur - Brasil 2004
Bento Gonçalves, RS. 

Desenho/madeira (100 x 70)

Resto do Post

Como no filme As pontes de Madison

Como no filme As pontes de Madison

No silêncio secreto das horas roubadas
dormentes desejos sangrei
versos calados para ti cantei... cantei
livrei segredos, despertando pássaros,  querubins

Ah! Como eu te amei

Nua rua, lua nua
gestos incertos
noites com tons de perfume

Tingidas

Destinada aliança
ao sabor dos desejos
no compasso dos ventos
no teu abraço dancei... dancei

Sobraram ecos dos beijos confessos
esparramadas pétalas
na frágil calçada

Ah! Como eu te amei...

Presa
entre o desejo de correr até ti
e a condenação
de sobreviver estátua 
à sombra do nada
com o olhar em prantos derramado
vendo-te partir
com metade da minha alma

Nos passos que ficaram pelo caminho

Saudade sepultada viva...
no abraço guardado
em cada jura silenciada
na boêmia poesia

No clarão da tempestade
dos olhos teus
vivo a morrer lentamente
no deserto doloso da tua ausência
deixando em cinzas o destino

E a chuva
lavando as feridas da renúncia calada
no véu da noite final

A eternidade
pode caber em quatro dias
era amor, sabemos nós

Ninguém te amou assim,
nem há de amar...
como no filme As pontes de Madison.

Miriam LI/Braga 

acrilica/papel camurça  (60 x 40)
Pintura e poema inspirados no filme As pontes de Madison.

Resto do Post

O silêncio dos invisíveis

O silêncio dos invisíveis 

Um fio de poesia brota
entre lembranças que golpeiam a carne
e desejos que sangram sem consolo
sustenta  berros calados que corroem
e denuncia a inexistência de existir 

Ferida aberta de não ser... 

Um sussurro de lamentos vedados
coberto com véus do esquecimento bordados de ais
escorre no eco do instante vazio
brutal suspiro, rasgado em restos de nãos 

Do silêncio
nasce a eternidade das juras de amor
não há morte para quem sangra em poesia 

O silêncio dos invisíveis... 

Incenso da dor e da esperança
promessa de versos tingidos de poesia
que grita com voz que o mundo recusa ouvir 

Invisível como a dor da lágrima calma
oculta em páginas e páginas de silêncio 
tecidas em letras viscerais, universais
onde a dor se faz verbo, a poesia, destino 

Guardião de berros que repousam, como pedra, na indiferença 
e o mundo pisa a passos largos e finge não olhar. 
Míriam Li/Braga 

acrilica/papel camurça (60 x 40)

Resto do Post

Nos salões da eternidade

Nos salões da eternidade 

No abismo das madrugadas repletas de ti
respiro saudades que carregam algemas exaustas

A poesia magoada, geme entre as grades do teu silêncio 
transborda em versos com voz de prisão 

Sem ti
a luz recusa o esquecimento 
ainda que a noite se negue amanhecer
teu sonho insiste em atravessar o meu 

Quisera, sob os véus cúmplices da noite, contigo, lentamente, dançar... 

Nos salões da eternidade 

abandonar o mundo nos braços teus
perder a razão no orvalho fatal do teu corpo no meu 

Sabem as estrelas
somos eternos no instante do nosso último olhar
 
Às vistas grossas da morte... 

Vivo!

Prisioneira da poesia com cor de ferida em carne viva da ilusão
condenada entre o ontem e nunca mais
no silêncio tumular dos versos, ainda te sonho. 

Sobraram versos
presentes nas ruínas do meu ser
despedem-se de si, ocultos na própria dor. 

Miriam Li/Braga 

acrilica/esmalte/grafite em pó/compensado

(70 x 50)

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Resto do Post

Ecos do instante

Ecos do instante 

Cansei de morrer, tantas vezes morri...
antes do abraço
a um passo do encontro marcado

Morri

atravessei luas pálidas
cruzei sóis viris
sem chegar a lugar algum

Cansei

Cansei... de morrer, cansei!

Reles destino
omisso
deitou-me em mar de areia

Náufraga do meu querer
ninguém me ouviu cantar...

Ninguém!

Na sombra de um verso
sombrio da indiferença
foge de mim, a pérfida poesia
inscrevo-te nas margens
do meu olhar de espera
até a tinta virar oceano

E o mundo se cala

Entre lágrimas que a terra devora
abandono as algemas da esperança
às portas do silêncio latente
na  madrugada vazia de calor

No corredor do tempo
o vento despeja saudade
promessas rasgadas

E uiva
lâminas de desejos

Fugitivos de gêmea solidão

Morremos nós... 
à beira de um beijo morto
no abraço que nunca chega

Nunca!

Tu e eu
morremos...
nos sonhos que ardem sob a pele

Nua
no encontro que não germina
na eternidade que se insinua

... para nos descobrirmos vivos.

Miriam Li/Braga
acrilica/lona (90 x 70)

https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Resto do Post

Entre o céu e a terra 

Sou cosmos e carne viva
conto estrelas como quem descobre destinos
sou da noite como a lua 
sonho a poesia rasgando o ventre da madrugada 

Com os pés descalços na terra que me aninha
sigo a luz que há no fim da orla extrema  do céu 
sussurro versos guardados no silêncio do ninho 
enquanto uma lágrima árida transborda mares invisíveis 

Entre o sopro do céu e o sangue quente da terra 
há um espaço só meu,  onde a minha vida é pintura viva 

E, é ali
de luz e cor vestida que me refaço e renasço sobre a tela encarnada que me sonha. 

Miriam Li/Braga 

acrílica/tela vermelha (encarnada)

(60 x40)

https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/

Resto do Post



Aos pés do mandacaru, chorei

A noite celeste de estrelas vestida
em silêncio poético, cai no árido dia
acorda desejos com a lua
sal das paixões desmedidas

Sincera
rasga o céu noturno em revelação
inocente instante de furor
da beleza em brancura noturna

Suplício

A morte súbita da flor da noite
se veste de luz
do primeiro sussurro da aurora
para nunca mais

Meu olhar permaneceu no silêncio

Ardente

Do rastro dos espinhos
esparramados
que sangravam perfumes
sobre a terra agreste

Fitei o segredo da eternidade breve
e a nudez da beleza e da morte
anunciada

Aoelhei-me em êxtase e dor
morri e renasci
na mesma lágrima calma

Aos pés do Mandacaru,

Chorei

Era a poesia que me fitava.

Miriam Li/Braga 
acrilica/esmalte/eucatex 
(90 x 60)

Resto do Post

Perfume, espinhos... Ea flor


Resto do Post

Perfumes, espinhos... E a flor 

Quando o abraço do teu olhar me consome
um cântico de eternidade silencia a rouquidão da noite 

Estremeço 

Fujo do punhal do tempo como quem morre a cada beijo
e renasce no sangue fervente da paixão 

A carne é labareda insaciável 
na vertigem onde a alma se perde 

A poesia sai de si, goteja o poema no delírio que arde e corrói 

Quando teus olhos de me querer florescem
atiçam perfumes, espinhos 

E a flor 

O que resta de mim senão o ardor de um verso cego 
à beira do abismo quase morte da paixão. 

Miriam Li/Braga

acrilica/papel camurça
(60 x 40) (em andamento)

Leva-me contigo


Resto do Post

Leva-me contigo 

Não há gritos nem vazios
a quietude do silêncio do meu olhar é luz  incandescente que não se apaga na espessura da noite

Desvela-me aos olhos teus
que me olham além dos enganos da existência 
e dos brilhos fáceis da pele falaz do mundo 

Sob as camadas ocultas que desafiam o teu castanho olhar 
rendo-me ao fadado encontro 

Vem
rasga as cortinas do tempo perdido
leva-me contigo ao luar de desejos
mostra-me para a tua pele rendida 

Ou me deixa aqui... 
no chão do retrato velado da indiferença 
até perder a voz do horizonte 
à espera de que a aurora tardia do teu perfume penhorado me desperte. 

Miriam Li/Braga 

acrílica,esmalte/Eucatex

(90 x 60)

https://www.instagram.com/olharesdaminhaalma/